Spitz sexagenário
Autor: dtakata

Quando eu era (bem) mais jovem, no alto da sabedoria dos meus 10 anos de idade, ouvia falar das façanhas de Mark Spitz, com seus sete ouros e sete recordes mundiais nas Olimpíadas de 1972, e pensava: "nunca ninguém vai igualar esse cara!". Na Olimpíada de 1992, assisti ninguém conquistar mais que duas medalhas de ouro individuais, e a esperança por um novo Spitz se esvaia. Ou melhor, Krisztina Egerszegi venceu três provas, mas ela era húngara. "A Hungria não tem revezamentos. Para alguém conquistar sete ouros, tem que ser americano", pensava. Mas mesmo assim, sete recordes mundiais era impossível!
Aspirantes à façanha de Spitz não faltaram. O primeiro foi o americano Matt Biondi, que em Seul/1988 levou sete medalhas, mas "somente" cinco de ouro. O australiano Michael Klim foi sete vezes medalhista no Mundial de 1998, mas não se arriscou em sete provas nos Jogos de 2000. Seu compatriota Ian Thorpe, seis ouros no Mundial de 2001 em sete provas, também nunca nadou sete provas em Olimpíadas.
Mas no início da década surgiu Michael Phelps, e o resto da história todos conhecem. Quatro ouros no Mundial de 2003, seis ouros nos Jogos Olímpicos de 2004, sete ouros no Mundial de 2007 e, finalmente, oito ouros na Olimpíada de 2008, com sete recordes mundiais.
Spitz foi colocado um degrau abaixo na escala dos maiores nadadores da história. Mas é inegável que seu feito de 1972 estabeleceu um (alto) parâmetro para os nadadores das décadas seguintes.
Não existe melhor dia para relembrar sua trajetória do que hoje, dia de seu 60º aniversário. Acompanhe abaxo fatos e feitos daquele que hoje é considerado o segundo maior nadador da história.
- Mark Andrew Spitz nasceu no dia 10 de fevereiro de 1950, filho de Arnold e Lenore Smith Spitz. Ironicamente, sua cidade natal chama-se Modesto, na California. Modéstia seria uma característica que definitivamente não o acompanharia em sua carreira...
- Em sua juventude, Spitz não se cansava de vencer competições e quebrar recordes. Antes de completar 11 anos, já tinha 17 recordes nacionais em sua faixa de idade. Em quatro anos, entre 1964 e 1968, treinando com o legendário George Haines no Santa Clara Swim Club, estabeleceu recordes nacionais da high school em todos os estilos e em todas as distâncias, um feito sem precedentes. Seu espírito competitivo certamente foi herdado de seu pai, que não queria de seu filho apenas medalhas, e sim recordes mundiais e feitos impressionantes. "Nadar não é importante: vencer é", dizia ao pequeno Mark.

- Nos Jogos Pan-Americanos de 1967, em Winnipeg (Canadá), conquistou cinco medalhas de ouro. Na época dos Jogos de 2007, no Rio de Janeiro, nos quais Thiago Pereira conquistou seis ouros, falou-se muito na imprensa que o brasileiro superou o recorde histórico de medalhas que era de Spitz em Pans. Isso NÃO é verdade. Obviamente, a imprensa brasileira, querendo encontrar um paralelo e uma possibilidade de comparação entre as várias conquistas de Thiago e os feitos do até então maior nadador da história, inventou essa bobagem. O fato é que, até 1967, a performance de Spitz era a melhor em Pans, mas foi superada logo em 1971 pelo seu compatriota Frank Heckl, com seis ouros. Portanto, Thiago em 2007 igualou o feito de Heckl. Superou sim a performance de Spitz, mas esta não representava mais nenhum recorde.
- Aos 18 anos, Spitz, arrogante e petulante, prometeu seis medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1968, no México. Não chegou nem perto e saiu de lá decepcionado. Ganhou duas medalhas de ouro (4x100m e 4x200m livre), uma de prata (100m borboleta) e uma de bronze (100m livre). A derrota mais decepcionante foi nos 200m borboleta. Ele era o recordista mundial com 2:05.7. Entretanto, na final, fez apenas 2:13.5, suficiente para o oitavo lugar. Ele também era o recordista mundial dos 100m borboleta.
- Após os Jogos de 1968, desapontado, Spitz resolveu mudar. Ao entrar na Universidade de Indiana, foi treinar com James Doc Counsilman, outra lenda da natação. Counsilman sabia mexer com a cabeça de seus atletas. Spitz chegou aos Jogos de 1972 ainda arrogante, mas muito mais confiante.
- Nos 200m borboleta, abaixou seu recorde mundial em quase um segundo. "Esta foi uma prova decisiva", analisou Peter Daland, chefe da equipe de natação americana. "Se tivesse perdido, o desastre de 1968 poderia se repetir". Uma hora depois, ajudou os EUA a vencerem o 4x100m livre com uma nova marca mundial.
- No dia seguinte, voltou à piscina para os 200m livre. Seu compatriota e rival Steve Genter havia passado por uma pequena cirurgia no pulmão quinze dias antes, e Spitz o aconselhou a desistir da prova. Segundo Spitz, sua sugestão visava apenas preservar a saúde do colega. Segundo Genter, era parte de uma guerra psicológica. Spitz conseguiu a terceira vitória e o terceiro recorde mundial, alcançando Genter nos 50 metros finais. Dois dias depois, mais duas marcas mundiais: 100m borboleta e 4x200m livre.

- Spitz já tinha cinco medalhas de ouro. Era, até então, o maior vencedor na natação em uma edição dos Jogos. Se conquistasse a sexta, seria o maior vencedor em todos os esportes. E o sexto ouro estava praticamente assegurado, já que ele, como vencedor dos 100m borboleta, tinha assegurada uma vaga no revezamento 4x100m medley. Por isso, Spitz pensava em desistir dos 100m livre, pois seu compatriota Jerry Heidenreich representava uma séria ameaça. Na cabeça de Spitz, era melhor disputar quatro provas e vencer todas do que nadar sete provas e vencer “apenas” seis. Quando ouviu os rumores de que Spitz pensava em desistir dos 100m livre, seu antigo técnico, Scherman Chavoor, que estava em Munique como técnico do time feminino dos EUA, correu para vê-lo. Disse: "Você pode ter cinco ou sete medalhas, mas não seis. Porque se não nadar os 100m livre, não vai disputar o revezamento 4x100m também". E prosseguiu, atingindo o ponto fraco de Spitz: "Se desistir agora, vão dizer que você está com medo, que você é um galinha”. Ser chamado de galinha era demais. Spitz nadou os 100m livre e venceu com recorde mundial, feito repetido no 4x100m medley, seu sétimo ouro e sétimo recorde mundial.
- Spitz retornou aos EUA como herói, como celebridade. Mostrou que sabia explorar sua imagem. Virou capa de revistas, viu seus encontros com a namorada virarem tema de reportagem, bateu recordes de audiência na TV ao raspar o famoso bigode diante das câmeras. Foi ainda um dos primeiros atletas a cobrar para dar palestras e ganhou um programa de televisão com o comediante Bob Hope.
- Se retirou do esporte em 1972, depois de 33 recordes mundiais e 38 recordes americanos. Formado em ortodontia, nunca chegou a exercer a profissão, e sempre ganhou a vida em eventos e palestras motivacionais, além dos inúmeros contratos de patrocínio. Voltou a nadar em 1991 para tentar fazer parte do time olímpico americano de 1992 nos 100 borboleta. Mas tudo não passou de mais uma peça de marketing. Na piscina, mostrou que não podia mais enfrentar a garotada, e sequer conseguiu índice para disputar a seletiva americana.

Comentários
Excelente texto!
Conta a história de um dos maiores do esporte de forma leve e fácil.
Parabéns, Takata.
--> Quanto ao Spitz... dispensa comentários, né?!
Eu ainda acho que essa história de nadadores deixarem crescer o bigode ou barba em véspera de competições é mais marketing do que qualquer outra coisa...
Já vi isso acontecer com americanos, brasileiros, australianos, canadenses, etc. É uma máscara.. o próprio Phelps faz isso, só o Cielo que nunca vi fazer.
Agora sobre o Spitz, ele poderia ter prolongado um pouco mais sua carreira, nadar em 1976.. ainda seria show.