Qual é a da Copa do Mundo?
Autor: dtakata

E o circuito da Copa do Mundo deste ano em piscina curta terminou no fim-de-semana passado, em Cingapura. A americana Jessica Hardy e o sul-africano Cameron Van Der Burgh (foto acima) terminaram como os grandes vencedores após seis etapas, levando para casa 100 mil dólares cada um por terem sido os melhores nadadores do circuito pelo complicado critério de pontos criado pela FINA. Obviamente isso não quer dizer que estes atletas são os melhores do mundo da atualidade - muito longe disso por sinal. Afinal de contas, onde estão os campeões olímpicos?
Em relação ao número de recordes mundiais, nem é preciso fazer muitos comentários. Foram 37, recorde na história da Copa. Mas 2009 também foi o ano com mais marcas mundiais, Roma sediou o Mundial com mais recordes da história... Se os trajes tecnológicos continuassem a ser permitidos, talvez daqui a algum tempo, um ou dois anos, bater um recorde mundial voltaria a ter o significado que já teve. Como serão proibidos a partir do ano que vem, teremos um período no qual um recorde mundial terá uma importância diferente do que já teve. Ou seja, melhor nem considerar esse número.
Qual foi o legado da Copa do Mundo de 2009? Infelizmente, foi o mesmo que o dos últimos anos: muito pequeno. Objetivamente falando, a popularidade de um evento esportivo em geral se dá pelo número de astros que participam dele. Nos maiores acontecimentos do esporte do mundo, os vitoriosos se tornam estrelas. Mas em competições menores (e aí se inclui a Copa do Mundo de natação), é o contrário: as estrelas é engrandecem os eventos.
Quais são os grandes nomes da natação mundial? Inquestionavelmente, pelo que fizeram nos últimos dois anos, estão entre eles Michael Phelps, Federica Pellegrini, César Cielo, Britta Steffen, Paul Biedermann, Ryan Lochte, Aaron Peirsol e Stephanie Rice. Biedermann foi o único deles que se mostrou em boa forma na Copa, quebrando dois recordes mundiais na etapa de Berlim. Phelps nadou duas etapas para treinar, e Peirsol apareceu na última também longe da melhor forma. Os outros sequer deram as caras.
Que diferença do atletismo, onde no último grande evento do ano, a Final Mundial, atletas como Usain Bolt e Yelena Isinbayeva mostraram seu talento e voltaram para a casa um pouco mais ricos e consagrados.
Foi bom ter citado o dinheiro. Talvez uma das grandes diferenças de motivação seja a forma de premiação. Depois de várias competições durante o ano, os classificados para a Final Mundial de atletismo podem conquistar 100 mil dólares a cada recorde mundial quebrado, além de 30 mil para o primeiro colocado de cada prova, 20 mil para o segundo e 12 mil para o terceiro. Na Copa do Mundo de natação, são 1.500 para o primeiro, mil para o segundo e 500 para o terceiro em cada etapa.
Os lugares escolhidos para abrigar as etapas da Copa também não contribuem para a presença de estrelas. Este ano, a etapa mais estrelada foi a de Berlim. Isso já acontece há alguns anos. Em outras etapas (e aí se inclui a etapa do Brasil, este ano excluída do calendário), aparecem alguns gatos pingados estrangeiros. Não é difícil lembrar que quando Austrália e Estados Unidos eram sedes, os grandes nomes também apareciam para nadar. E isso atraia gente em busca de competições de alto nível. Berlim, Nova York e Sydney formavam a santíssima trindade da Copa. Ninguém dava muita importância para o resto. Agora que só restou Berlim, a importância da Copa se reduziu. Repetindo: sem estrelas, a divulgação da mídia é ínfima, não importa muito o nível técnico.

Michael Phelps na etapa de Sydney em 2003: lá o bicho pegava
E existe também o fato da piscina de 25m. Não acho que esse seja um grande problema. Todo ano final de ano é disputado o Campeonato Europeu de curta, com os principais nadadores europeus (e em geral mais estrelado que a Copa do Mundo). Obviamente não há comparação entre ser recordista mundial em piscina longa (principalmente em uma prova olímpica) e em piscina curta. Alexander Popov dizia que "piscina curta é tipo brincadeira de criança".
O problema maior para a FINA é encontrar um modo de atrair as estrelas para manter a Copa do Mundo em evidência. O atletismo já descobriu uma maneira. É difícil copiar o atletismo, mas há de se dar um jeito. Para os brasileiros, é inegável o ganho com a possibilidade de competir internacionalmente. Mas muito pouca gente sequer saberá disso enquanto a Copa do Mundo seguir do jeito que está. Lugares mais atraentes e mais prêmios para atrair os astros são possibilidades a se pensar.
Para encerrar, um texto escrito por David Berkoff em 1997 sobre os recordes mundiais de curta (texto retirado do Swim It Up! impresso, nº 8). Na época, recordes em piscina de 25m eram coisa recente (desde 1993 a FINA passou a reconhecê-los) e ele resolveu polemizar. Lendo o texto 12 anos depois, parece um pouco radical, mas não deixa de ter sua parcela de razão. Berkoff foi vice-campeão olímpico dos 100m costas em 1988 após ter quebrado o recorde mundial da prova na eliminatória.
Eu também acho que os recordes de curta não valem o título de "recordes mundiais". De fato, apenas alguns se comparam aos de longa. Por anos americanos e estudantes visitantes vêm nadando em jardas e nenhum destes recordes foi reconhecido fora dos EUA. E acredito que não devam.
No Mundial e nas Olimpíadas, os eventos são somente na longa. e é onde verdadeiros nadadores são elevados ao status de campeões. Olhe para a TV. Nós temos o Xtreme Games na ESPN, onde snowboarders são tratados como atletas olímpicos - embora ache legal ver estes esportes, zombo da idéia de que eles estão no mesmo nível profissional dos maiores esportes olímpicos. Olhe a estupidez de esportes pré-fabricados na TV, como aeróbica, vale-tudo, etc. O que estou tentando deixar claro é que a natação e diversos outros esportes estão tentando competir com esta tendência de trivialização do valor dos esportes.
Recordes na curta estão na mesma linha. Eu não trocaria meu velho recorde mundial dos 100m costas na longa por 20 na curta. Nem o fariam a maioria dos nadadores que têm ou tiveram um. O fato é, jogos são elevados para o esporte quando eles já têm alguma história por trás. A natação na longa está aí quase o mesmo tempo que o próprio esporte, especialmente nós americanos sofremos de uma necessidade neurótica de imediatamente sermos diferentes ou bons em algo que ninguém mais é, e então rapidamente canonizar a atividade como legítima. Nós não permitimos tempo ao jogo amadurecer, desenvolver, tornar-se profissional, ou ter boas performances antes de o querermos tão legítimos quanto, digamos, o basquete ou o atletismo.
Então, para concluir. Recordes na curta são um sintoma do fenômeno dos anos 90. Sem imediata gratificação, mas imediata importância. Paciência está faltando em qualquer lugar. Ninguém quer "esperar e ver" se um jogo se tornará um esporte. Em nossos esforços para ovacionar resultados e manchetes de NOVOS RECORDES MUNDIAIS ou 3 VEZES OURO NO EXTREME GAMES, nós esquecemos que a maior parte do esporte é a legitimidade.
Eu agora volto para minha insignificância.
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Comentários
Caramba Takata, vc guardou esse texto quando ele foi publicado, ou sabia da existência dele e foi até o swim it up e pegou?
Não concordo com o Berkoff. Eu acho que competições em piscina curta ampliaram as possiblidades de a natação evoluir. Isto é, alcança mais pessoas, as técnicas diferentes têm mais visibilidade, o esporte acaba por ganhar.
twitter.com/raiazero
Eu também não concordo... a gente não pode esquecer que a piscina de 25m é o berço da natação para a maioria dos nadadores... é muito mais fácil aprender a nadar numa piscina menor e mais rasa do que a de 50m, e dai vem o prazer de se nadar e competir nela. A questão de prestigiar mais a piscina de 50m, na minha opinião, é coisa americanista que vem de anos atrás e cada vez mais está ganhando a atenção dos demais paises, mas ainda assim eu acho que as competições em piscina de 25m são tão boas e tão importantes quanto todas as outras.
Também não concordo...
E os americanos são um berço na natação pq até em associação de presidiários tem piscina de50 jardas.
Piscina de 50 metros é muita infra estrutura e água, muita água.
Eu concordo com o texto.
É claro que a imensa maioria dos nadadores aprendem a nadar na curta, mas é como se fosse o que o primário é para a educação: uma fase de transição, de amadurecimento.
O fato de as Olimpíadas e o Mundial serem na longa mostra que piscina curta é só um tira gosto, tipo 4Fun.
Mas algumas competições na curta tem seus atrativos e valem a pena ser acompanhadas, como o Europeu.
Em piscina de 25 é só campeonato de virada.
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