King Kieren Perkins
Autor: dtakata

"Eu tinha uma grande aversão em colocar minha cabeça na água, ou seja, molhar o rosto mesmo. Meu técnico ficava fora da piscina, me acompanhando, com uma vassoura na mão e batendo na minha cabeça para que eu a abaixasse. Devo dizer que não são memórias prazerosas".
O autor dessa frase, além de revelar que não gostava muito de nadar quando criança, confessa que tem um certo trauma dessa época. E quem iria imaginar que, anos depois, essa criança viria a se tornar um dos maiores fundistas da história, com certeza sem nenhuma aversão às piscinas - caso contrário não nadaria os 1500m livre por três Olimpíadas consecutivas. Estamos falando do australiano Kieren Perkins, um dos maiores ídolos da história do esporte de seu país e um dos responsáveis pela enorme popularidade que a natação alcançou na Austrália.
Perkins nasceu no dia 14 de agosto de 1973, na cidade de Brisbane. Ele conta que, quando criança, "meu pai tinha uma regra: nós tínhamos que fazer algum esporte, eu e meu irmão, não importa qual, mas tínhamos que praticar um esporte e eles (os pais) nos apoiariam no que escolhessemos".
Perkins tentou alguns esportes, até que chegou à natação. Como já vimos em suas próprias palavras, não era exatamente o que ele mais gostava de fazer, mas seguiu com o esporte como uma forma de se exercitar algumas poucas vezes por semana.
Foi quando, aos oito anos, Perkins brincava de pega-pega com seu irmão Jared em sua casa. Jared entrou em um cômodo da casa e fechou a porta para que Kieren não entrasse. No entanto, Kieren não conseguiu parar e atingiu em cheio a porta, que era de vidro. O impacto foi tão grande que os vizinhos pensaram se tratar de uma explosão. Kieren se feriu seriamente e foi encaminhado para o hospital, onde tomou 87 pontos. O ferimento mais grave foi em sua panturrilha esquerda. Os médicos chegaram inclusive cogitar a amputar a perna, e pensavam que Kieren nunca mais pudesse andar novamente.
Foi então que os médicos sugeriram a natação como trabalho de fortalecimento. Aquele esporte que servia de passatempo algumas vezes por semana agora deveria ser encarada de maneira séria, regular, diariamente. Após um trabalho de 3 meses, Kieren já podia andar novamente. Sua recuperação foi total. E mais: o contato diário com a piscina o fez tomar gosto pelo esporte. Além disso, foi nesse período que ele conheceu o treinador John Carew, que teria uma grande influência em sua carreira.
Uma passagem marcante relatada pelo próprio Perkins aconteceu quando ele tinha "uns 10 ou 11 anos", e mostra uma maturidade impressionante. Naquela ocasião, em um torneio de natação, Perkins terminou sua prova em último lugar. Ao contrário do que se pode imaginar, ele saiu da piscina efusivo e, com um sorriso no rosto, correu em direção aos seus pais perguntando: "foi meu melhor tempo? Consegui melhorar meu tempo??" "Essa sempre foi minha filosofia, desde quando criança até hoje", diz Perkins. "Essa é a referência que eu uso: será que fiz meu melhor?"
Quando Kieren Perkins tinha 13 anos, seu técnico John Carew o introduziu aos treinamentos de fundo. Aos 14 anos, ele conquistou seu primeiro título estadual, em uma prova de 400m livre, vencendo Craig Hackett - irmão de Grant Hackett!! Em 1989, aos 15 anos, foi campeão nacional de categoria dos 400m e 1500m. Foi quando decidiu fazer da natação sua profissão. "Foi quando eu comecei a mostrar que tinha algum talento". Na época, ele já dividia a escola com treinos que variavam de 70 a 80 quilômetros por semana. No mesmo ano, terminou em 2º no Australiano Absoluto nos 1500m, atrás apenas de Glen Housman, que na ocasião bateu o recorde mundial.
Aos 16 anos, Perkins começou a nadar 16 quilômetros por dia, que seria a distância média percorrida por dia até o fim de sua carreira. Naquele ano, em 1990, seu técnico previu que ele nadaria abaixo dos 15 minutos nos 1500m nos Jogos da Comunidade Britânica. Ninguém acreditou muito, mas Perkins fez 14:58.08, atrás apenas do então recordista mundial Housman, se tornando o terceiro homem da história da natação a nadar abaixo de 15 minutos e o mais jovem até hoje a nadar abaixo dessa mítica barreira.
Em 1991 Perkins nadou uma prova alucinante no Campeonato Mundial de natação em Perth, Austrália, ao lado do alemão Jorg Hoffman. Durante todos os 1500 metros, ambos lutaram braçada a braçada, e Perkins nadou abaixo do antigo recorde mundial com 14:50.58, mas suficiente apenas para a segunda posição, 22 centésimos atrás do experiente Hoffman. Anos mais tarde, Hoffman confessaria que se dopava à época (na foto abaixo, Perkins com sua prata).

Foi então que Perkins começou a oferecer ao mundo um domínio avassalador nas provas de fundo. No Pan-Pacífico daquele ano, em Edmonton (Canadá), Perkins nadou os 1500m com o objetivo de bater o recorde dos 800m livre na passagem da prova. Foi o que ele fez: nadou 800 metros, parou para ver o placar, confirmou seu recorde, continuou nadando a prova e ainda venceu! "Eu não ia esperar mais 700 metros para saber se eu tinha quebrado o recorde ou não", disse ele mais tarde. Seu tempo de 7:47.85 melhorou em quase três segundos a antiga marca de Vladimir Salnikov.
O ano de 1992 representou a consagração definitiva de Perkins. No começo do ano, em um campeonato estadual, melhorou seu recorde mundial dos 800m livre com 7:46.60. Três meses antes dos Jogos Olímpicos daquele ano, em Barcelona, se tornou recordista mundial dos 400m livre (3:46.47) e dos 1500m livre (14:48.40) pela primeira vez na carreira. O feito foi alcançado durante a Seletiva Olímpica Australiana, em Camberra. Chegou a Barcelona como franco favorito em ambas as provas. E não decepcionou. Primeiro, nadou os 400m livre para 3:45.16 e melhorou sua antiga marca. Mas o pesadelo de superar o recorde mundial e ainda assim terminar na segunda colocação voltou a acontecer, com o russo Evguenyi Sadovyi o superando por 16 centésimos. Com seus brios inflamados, caiu na piscina no último dia de competições para simplesmente destruir seu recorde mundial dos 1500m. Virando os primeiros 100 metros muito forto com 55.30, já eliminou qualquer possibilidade de ser acompanhado. Terminou com 14:43.48,mais de 20 metros na frente do segundo colocado (na foto abaixo, no pódio da prova). Foi a maior margem de melhora do recorde mundial dos 1500m desde 1975. Perguntado se poderia manter a hegemonia por muito tempo, assim como a lenda do fundo russo Vladimir Salnikov, campeão olímpico em 1980 e 1988, Perkins desconversou: "Os 1500m é uma prova boa para nadadores jovens. Quero continuar melhorando, mas não sei se agüento nadar por mais oito anos".

O show continuou em 1993: bateu recordes mundiais dos 800m e 1500m livre em piscina curta e conquistou 3 medalhas de ouro no Pan-Pacífico. Foi ainda peça fundamental na eleição de Sydney para sede das Olimpíadas de 2000.
1994 foi o ano da afirmação como o maior fundista do mundo. A destruição de marcas começou nos Jogos da Comunidade Britânica, em Victoria, na Austrália. Venceu os 400m livre com 3:45.77, sua segunda melhor marca até então. Sua performance nos 1500m livre naquele campeonato é considerada uma das maiores exibições da história da natação. Começando em ritmo muito forte, definiu a prova logo nos primeiros metros. Na marca dos 800 metros, virou com o tempo de 7:46.00 – no pé! – e melhorou seu recorde mundial. Não satisfeito, completou a prova com o tempo de 14:41.66, se tornando o único nadador da história a bater dois recordes mundiais em uma única prova! Seus recordes seriam superados apenas sete anos depois. Naquele campeonato, ainda venceu os 200m livre e 4x200m livre.
Duas semanas depois, no Campeonato Mundial de Roma, mostrou que segurou a boa forma. Venceu os 400m livre com 3:43.80, um recorde que durou por cinco anos até o aparecimento de Ian Thorpe. "Eu voei!", disse Perkins após a prova. Pudera: sua vitória aconteceu com uma folga jamais vista naquela prova em um Mundial até então. Apesar de doente, também venceu os 1500m, com 14:50.52, seu quarto melhor tempo até então. E dividiu os méritos com seu técnico: "John Carew é o melhor treinador de fundo do mundo". Encerrou o ano eleito como o melhor nadador do mundo pela tradicional revista americana Swimming World.

Em 1995, sua maior conquista foi a vitória nos 1500m no Campeonato Pan-Pacífico, em Atlanta. Mas não fez um tempo à altura de seus feitos anteriores (14:58.92). Muitos acreditavam em uma possível decadência do ídolo. Ainda mais quando, na Seletiva Olímpica de 1996 para os Jogos de Atlanta, ele ficou apenas na terceira posição nos 400m livre e, com isso, não poderia defender seu título olímpico. Juntando com seu segundo lugar nos 1500m, foi alvo de duras críticas. Poucos se preocuparam em saber que ele competiu no sacrifício, atacado por uma virose. Após a seletiva, por duas semanas não conseguiu treinar.
Nos Jogos de Atlanta, nadou 40 segundos acima de seu melhor tempo nas eliminatórias e se classificou para a final apenas na oitava posição - se Perkins tivesse nadado 12 centésimos mais lento, estaria fora da final. Novamente foi atacado pela imprensa. Os jornais o davam como acabado. "KIEREN SINKS" (Kieren afunda), diziam os diários. Mas calou os críticos no dia seguinte, dia da final. Passando os primeiros 100m com 55.30 (exatamente a mesma parcial de Barcelona/1992!), venceu os 1500m nadando na raia oito com 14:56.40, fez a dobradinha com Daniel Kowalski e se tornou lenda (na foto abaixo, sua comemoração histórica). "Palavras não são suficientes para descrever o que sinto. Foi difícil ganhar o ouro pela primeira vez em 1992, mas ganhar novamente foi milhares de vezes mais difícil". Sua vitória emocionou muitos. Sua companheira de seleção australiana, Hayley Lewis, declarou, entre lágrimas: "ele é um grande campeão! Todos os australianos devem beijar o chão que ele anda! Ele é o maior nadador da história e uma grande pessoa! A Austrália tem muita sorte de tê-lo".

Suas conquistas olímpicas e seus diversos recordes foram fundamentais para recuperar o prestígio da natação australiana, meio em baixa após os anos 80, anos de domínio dos americanos e das alemãs-orientais. Preparou terreno para a geração seguinte de nadadores. Se hoje a natação é o esporte mais popular da Austrália, a comunidade aquática deve muito disso a King Kieren Perkins.
Depois de um período de merecido descanso após o bicampeonato olímpico, voltou em 1997 para tentar a classificação para o Campeonato Pan-Pacífico de Fukuoka. Não nadou bem e pouco pôde fazer diante do aparecimento dos fenômenos Ian Thorpe e Grant Hackett. Também não se classificou para o Campeonato Mundial de Perth/1998, realizado em seu país. A seqüência de decepções continuou em 1999, quando não obteve bons resultados no principal torneio de 1999, o Pan-Pacífico de Sydney. Seu tempo nos 1500m, 15:28.43, foi mais de 45 segundos pior que sua melhor marca.
Mas Perkins tinha um objetivo na cabeça: encerrar de maneira honrosa sua gloriosa carreira, nadando as Olimpíadas em seu país. Se conseguisse isso, poderia se aposentar satisfeito. Seria a melhor maneira de mostrar ao mundo que não estava acabado para a natação.
E ele conseguiu convencer o mundo que estava de volta à sua melhor forma. Na Seletiva Olímpica Australiana, em maio de 2000, conseguiu carimbar o passaporte para os Jogos Olímpicos de Sydney em sua especialidade, ao cravar 15:01.10 e terminar na segunda colocação atrás de Grant Hackett. Perkins, assim, ia para sua terceira Olimpíada tentar um tricampeonato inédito entre os homens.
Na abertura dos Jogos, a popularidade do atleta foi mais que comprovada, quando, ao som da música tema dos Jogos "Heroes Live Forever", sua imagem comemorando a conquista olímpica de 1996 (mostrada na foto lá em cima) apareceu refletida nas arquibancadas do Estádio Olímpico. Foi o único nadador a ter essa honra.
Oito anos depois de Barcelona/1992, Perkins ainda continuava competitivo. Ao contrário de sua previsão de oito anos antes, ele não só agüentava nadar os 1500m como tinha a chance de um inédito tricampeonato olímpico. Que parecia cada dia mais palpável à medida que as provas de natação iam acontecendo. Sua maior ameaça nos 1500m, Grant Hackett, estava apresentando resultados decepcionantes em outras provas (200m e 400m livre). Nas eliminatórias de sua prova, Perkins registrou o melhor tempo já obtido em uma eliminatória dos 1500m livre na história da natação: 14:58.34, seu melhor tempo desde as Olimpíadas de Atlanta. A final prometia ser eletrizante, com Perkins buscando o tri e Hackett querendo seu primeiro ouro olímpico. Os australianos sabiam disso, tanto que a audiência da final da prova na televisão foi a maior da história do país para um evento esportivo: 86% da população (15 milhões de telespectadores). Não se falava em outra coisa na Austrália. Naqueles 15 minutos, o país inteiro parou. Ao final, Perkins conseguiu um tempo ainda melhor do que o obtido na Olimpíada de 1996: 14:53.59. Mas Hackett dominou a prova durante todo o percurso e venceu com 14:48.33 (na foto abaixo, ambos após a prova). Perkins se mostrou resignado com a prata: "Sou um competidor. Claro que eu queria ganhar, mas definitivamente foi um bom resultado. Se alguém tinha que me vencer, melhor que seja um australiano".

Depois de Sydney, se aposentou. Mas não se afastou da natação, trabalhando por vezes como comentarista para canais de televisão e escrevendo colunas em jornais australianos. Foi eleito para o quadro da Comissão Australiana de Esportes. Muitos o consideram o maior nadador homem da Austrália de todos os tempos. Entre seus inúmeros feitos, está o de ser o primeiro nadador da história a ter os títulos olímpico, mundial, dos Jogos da Comunidade Britânica e do Pan-Pacífico. Também é o mais condecorado nadador da história olímpica em uma prova, com dois ouros e uma prata nos 1500m livre. Alexander Popov também tem dois ouros e uma prata nos 100m livre, mas o feito de Perkins toma uma magnitude diferente por se tratar daquela que é talvez a prova mais dura da natação para treinar e competir.
Top 10 all-time - Kieren Perkins 1500m livre
1. 14:41.66 Jogos da Com. Brit. Victoria 24/08/1994
2. 14:43.48 XXV Jogos Olímpicos Barcelona 31/07/1992
3. 14:48.40 Seletiva Olímpica Canberra 05/04/1992
4. 14:50.52 VII Camp, Mundial Roma 11/09/1994
5. 14:50.58 VI Camp, Mundial Perth 13/01/1991
6. 14:53.59 XXVII Jogos Olímpicos Sydney 23/09/2000
7. 14:55.92 Camp, Pan-Pacífico Kobe 15/08/1993
8. 14:56.40 XXVI Jogos Olímpicos Atlanta 26/07/1996
9. 14:58.08 Jogos da Com. Brit. Auckland 30/01/1990
10. 14:58.34e XXVII Jogos Olímpicos Sydney 23/09/2000
Foto abaixo: Kieren Perkins participa da cerimônia de revezamento da tocha olímpica antes dos Jogos de 2000.

O Albatroz
Autor: dtakata

Isto é um albatroz. Um pássaro que voa com graça. As asas do albatroz geram mais velocidade e força do que qualquer outro pássaro.

Este é o nadador Michael Gross, da Alemanha Ocidental, cuja envergadura dos braços atinge mais de 2m, fazendo-o nadar mais rápido que qualquer outro nadador do mundo em sua época. Michael Gross é chamado de "O Albatroz".
Michael Gross, natural de Offenbach, quebrou seu primeiro recorde mundial no Campeonato Alemão-Ocidental de 1983, em Hannover, aos 19 anos: 1:48.28 nos 200 livre. Mas já havia mostrado seu poderio no Campeonato Mundial de 1982, em Guayaquil, onde havia conquistado a medalha de ouro nos 200 livre e 200 borbo e a prata nos 100 borbo.
Michael Gross intimidava seus adversários com seu porte físico: 2 metros de altura e 2,11m de envergadura. Mas fora das piscinas, Gross era um exemplo de educação e respeito aos adversários. Era tão gracioso na vitória quanto na derrota.
As Olimpíadas de Los Angeles/1984 foi a competição que transformou Michael Gross no melhor nadador do mundo. Não se intimidou com seu pesado programa de provas (3 individuais e 3 revezamentos). Logo no primeiro dia, sem nenhuma surpresa, venceu os 200 livre com 1:47.55, novo recorde mundial, superando o concorrente mais próximo por dois corpos (muito grandes!). Foi a primeira medalha de ouro da história da Alemanha Ocidental na natação. No dia seguinte, enfrentou o americano Pablo Morales na final dos 100 borboleta, o único homem até então a nadar a distância abaixo dos 54s. Gross venceu nas últimas braçadas. “Toquei a borda e depois olhei para o placar eletrônico e vi 53.08 contra 53.23. Não havia percebido que tinha ganho. Estava feliz com o tempo, e aí então percebi que ganhara batendo o recorde mundial. Foi surpreendente para mim. Acho que para o público também, porque Pablo era o detentor do recorde mundial. Pablo estava muito desapontado e chorando muito, sem entender bem o que tinha acontecido. Disse para ele que naquela situação ele deveria ficar satisfeito porque havia dado o máximo de si. Ele nadou muito bem, mas eu fui mais rápido. Não havia razão para ele chorar”, disse o Albatroz
No mesmo dia, foi realizada a final do 4x200 livre. A Alemanha Ocidental detinha o recorde mundial, mas a equipe americana superou a marca nas eliminatórias da prova. Na final, os americanos colocaram seus melhores nadadores no início. No entanto, Bruce Hayes, o último americano, foi alcançado por Gross em apenas 50m, e foi ultrapassado após 100m. Para Hayes, o confronto com Gross agora era realidade. Semanas antes, ele havia sonhado com a batalha. “Nos meus sonhos, eu o via me passando. Eu estava próximo da chegada e ele, com o bração, me vencia. Portanto, nem nos meus sonhos eu o vencia”. Aos 150 metros, Gross tinha uma vantagem clara. Mas o impossível aconteceu: Hayes diminuiu a distância e, na última braçada, venceu por apenas 4 centésimos! Foi a prova mais emocionante daqueles Jogos. Gross nadou aqueles 200 metros em 1:46.89, a parcial mais rápida da história até então.
Com duas medalhas de ouro, Gross foi para os 200 borbo, sua melhor prova, como franco favorito. Era esperado um duelo contra Pablo Morales e o venezuelano Rafael Vidal. Mas aconteceu algo inesperado. O australiano Jon Sieben, 17, quarto colocado faltando 50 metros, ultrapassou todos os favoritos e bateu o recorde mundial de Gross por um centésimo (1:57.04). Ele melhorou seu tempo de antes da Olimpíada em nada menos que quatro segundos! Na coletiva de imprensa, Gross preferiu louvar o feito do australiano ao invés de falar de si próprio.

Michael Gross chegou ao Mundial de Madri/1986 como o maior astro da natação mundial, apesar da ascensão da estrela americana Matt Biondi. Mas Biondi não foi páreo para o alemão na primeira prova em que se confrontaram, os 200 livre. Gross venceu com 1:47.92, meio segundo acima de seu recorde mundial. “Estou feliz com a vitória, mas não com o meu tempo. Morri nos últimos 50 metros, mas Matt e os outros caras morreram mais ainda. Não sei o que fazer para melhorar (meu tempo). Talvez 1:47 seja meu limite”, previa com acerto o alemão.
Outra previsão acertada do alemão foi feita antes dos 100 borbo. Não havia ninguém que pensasse que ele poderia terminar fora do pódio da prova, exceto ele: “os 100 borbo exigem muita velocidade, e eu não tenho a velocidade dos outros (Pablo Morales e Matt Biondi)”. Estava certo. Ele passou os primeiros 50 metros muito atrás dos primeiros colocados e terminou apenas na quarta posição com 53.87. Os 200 borbo foram vencidos sem muita concorrência. Mas suas parciais denunciam que a prova não foi fácil no final: 26.35, 29.28, 29.27 e – ai! – 31.23. Tempo final: 1:56.53, 29 centésimos acima de sua marca mundial. “É sempre o mesmo problema. Estou sempre treinando para os últimos 50 metros, mas são sempre os mais lentos. Estou sempre tentando (corrigir) – vocês não fazem idéia de quantas coisas diferentes venho tentando. Acho que não há mais esperança”.

As frases de efeito do Albatroz sugeriam que ele não era mais o mesmo. Mas ele ainda tinha algumas cartas na manga. Nas Olimpíadas de Seul/1988, não era mais tratado como a grande estrela. Foi apenas um coadjuvante nas provas que havia ganho em 1984 (quinto lugar nos 200 livre e 100 borbo). Os 200 borbo, sua melhor prova, era a última chance de uma medalha em Seul. Assim como em Madri/1986, passou forte e estava abaixo da parcial do recorde mundial até 150 metros. Morreu no final, mas venceu com um corpo de vantagem sobre o segundo colocado. “Apenas a vitória era importante para mim hoje”.
Foi a despedida de Gross de Olimpíadas. Seu último grande campeonato foi o Mundial de Perth/1991. Nos 100 borbo, surpreendeu a todos ao passar os primeiros 50 metros na primeira colocação, mas foi alcançado no final por Anthony Nesty, do Suriname, e foi batido por dois centésimos (53.29 x 53.31). Nos 200 borbo, Michael Gross passou os primeiros 100 metros ainda mais forte do que costumava fazer, com 54.86. Mas logo foi alcançado pelo americano Melvin Stewart, que com 1:55.69 superou em 55 centésimos o recorde mundial do alemão. Gross chegou em segundo com 1:56.78. “Não estou desapontado nesse fim de carreira. Consegui nadar para 1:56 novamente. Não posso nadar para 1:55.5 hoje. É impossível. Morri nos últimos 25 metros”. Michael Gross saiu de Perth como o mais condecorado nadador da história de Campeonatos Mundiais até então: 11 medalhas.
Michael Gross, da Alemanha Ocidental, que na vitória ou na derrota recebe as glórias. Aqueles que enfrentaram Gross vão lembrar dessa experiência para sempre. Enfrentaram o melhor, o Albatroz.


Torpedo biônico
Autor: dtakata

Matt Biondi, ou "Torpedo de Modena", pela sua descendência italiana, foi um dos maiores nadadores que o mundo viu nadar.
Matthew Nicholas Biondi nasceu em 8 de outubro de 1965, em Moraga, Califórnia. Quando estudava na Universidade da Califórnia, não apenas competia natação pelo Golden Bears (equipe universitária) como também era membro do time de pólo aquático. Ele ajudou a Califórnia a conquistar três campeonatos da National Collegiate Athletic Association, em 1983, 1984 e 1987.
Mas era nadando que Biondi era rei. Enquanto aluno da Universidade da Califórnia, conquistou oito títulos individuais e cinco em revezamentos no NCAA (Campeonato Universitário Americano). Em 1986, se tornou o primeiro nadador em 56 anos a ganhar as 50, 100 e 200 jardas livre – um feito que seria igualado em 1995, pelo nosso grande Gustavo Borges. Um ano depois, repetiu as vitórias – a primeira vez na história. Foi nomeado Nadador do Ano do NCAA três vezes consecutivas (1985-87).
Aos 19 anos, Biondi participou dos Jogos Olímpicos de Los Angeles/1984. Nadou o revezamento 4x100 livre americano que bateu o recorde mundial. No dia 6 de agosto de 1985, Matt Biondi bateu seu primeiro recorde mundial individual nas eliminatórias dos 100 livre no Campeonato Americano com 49.24. Não satisfeito, voltou para superar o recorde novamente na final e se tornar o primeiro homem a quebrar a barreira dos 49 segundos com 48.95. No Campeonato Mundial de Madri/1986, se consagrou definitivamente. Conquistou sete medalhas (ouro nos 100 livre, 4x100 livre e 4x100 medley, prata nos 100 borbo e bronze nos 50, 200 e 4x200 livre) – recorde absoluto até então. Bateu também dois recordes mundiais nos revezamentos 4x100 livre e medley.

Antes dos Jogos de Seul/1988, começou a ser comparado a Mark Spitz. Quando chegou na Coréia, muitos diziam que ele poderia vencer as sete provas que nadasse. Ao contrário de Spitz, entretanto, Biondi não alimentava as expectativas: “muitas coisas podem acontecer. Muitas coisas podem tomar um caminho que não espero. Minhas chances são pequenas. É difícil pensar em conquistar sete medalhas de ouro porque é quase impossível”.
Logo na primeira prova, ele viu que realmente era impossível. Nos 200 livre, Biondi foi vencido pelo australiano Duncan Armstrong, que bateu o recorde mundial (1:47.25), e pelo sueco Anders Holmertz (1:47.89). Biondi piorou 27 centésimos de seu melhor tempo e completou a prova em terceiro com 1:47.99. A vitória de Armstrong foi surpreendente, já que ele estava ranqueado em 46º do mundo na época. Ao ver frustrado o objetivo de igualar a marca de Mark Spitz, Biondi disse: “você não via nadadores como estes da Austrália e da Suécia quando ele nadava em 1972. Os dias de Mark Spitz ficaram para trás”. Na prova seguinte, os 100 borboleta, Biondi liderou do começo ao fim, mas deslizou muito na chegada ao invés de dar uma braçada extra e foi alcançado por Anthony Nesty, do Suriname, que venceu por um centésimo (53.00). Foi a primeira medalha olímpica do Suriname e a primeira medalha de ouro olímpica para um nadador negro.
Este seria o último revés de Biondi nos Jogos. Depois disso, conquistou cinco medalhas de ouro consecutivas. Nos 100 livre, estabeleceu recorde olímpico que durou 12 anos (48.63). Na volta dos 50 livre às Olimpíadas depois de 84 anos, ele superou o recordista mundial e favorito Tom Jager com 22.14, nova marca mundial. Também ajudou os EUA a ganharem os revezamentos 4x100 medley, 4x100 e 4x200 livre – neste último, sua parcial foi a melhor da história até então (1:46.44).
Em Barcelona/1992, Biondi estava de volta, mas o auge da carreira já havia passado. Nada pôde fazer frente ao surgimento do fenômeno russo Alexander Popov. Ainda assim, foi prata nos 50 livre e ouro nos 4x100 livre e 4x100 medley (neste, por nadar as eliminatórias). Com 11 medalhas olímpicas, Biondi encerrou a carreira. Todas as medalhas estão no Hall da Fama de Esportes Nacional Ítalo-Americano.
TOP 10 ALL-TIME MATT BIONDI: 100 LIVRE
1. 48.42 Seletiva Olímpica Austin, 10/08/1988
2. 48.63 Jogos Olímpicos Seul, 22/09/1988
3. 48.74 Campeonato Americano Orlando, 24/06/1986
4. 48.94 Campeonato Mundial Madri, 19/08/1986
5. 48.95 Campeonato Americano Mission Viejo, 06/08/1985
6. 48.99e Seletiva Olímpica Austin, 10/08/1988
7. 49.02 Goodwill Games Federal Way, 24/07/1990
8. 49.04e Jogos Olímpicos Seul, 22/09/1988
9. 49.14 Universíade Kobe, 27/08/1985
10. 49.17 Pan-Pacífico Tóquio, 16/08/1985
TOP 5 ALL-TIME MATT BIONDI: 100 LIVRE PARCIAIS DE REVEZAMENTO
1. 47.66 Pan-Pacífico Tóquio, 17/08/1985
2. 47.78 Campeonato Mundial Madri, 23/08/1986
3. 47.81 Jogos Olímpicos Seul, 23/09/1988
4. 47.84 Pan-Pacífico Tóquio, 18/08/1985
5. 48.14 Universíade Kobe, 28/08/1985
Abaixo, foto histórica: Matt Biondi e Alexander Popov, após os 50 livre nas Olimpíadas de Barcelona/1992, prova vencida pelo foguete russo.

O primeiro campeão olímpico
Autor: dtakata

A natação faz parte do programa olímpico desde as primeiras Olimpíadas da era moderna, em Atenas/1896. As primeiras provas olímpicas de natação foram realizadas ao ar livre, em águas abertas, na Baía de Zea, e foram assistidas por 20.000 pessoas nas margens. A água estava fria, ao contrário do usual, e na manhã da competição a temperatura da água caiu para 55 graus Farenheit (13 graus centígrados). Ondas de três metros eram outro obstáculo. O percurso era marcado por séries de abóboras ocas que flutuavam sobre a água. O eventual vencedor de duas das três provas, os 100 e os 1200 metros, foi o húngaro Alfréd Hajós, 18, de Budapeste. Hajós relembrou a experiência dos 100 livre, de entrar na água de um bote que tinha levado os 10 nadadores ao ponto de partida: "A água congelante quase cortou nossos estômagos. Até os 70 metros foi uma prova cabeça-a-cabeça, mas então usei meu segundo fôlego e venci a competição. Meu tempo (1:22.2) não foi algo que eu pudesse me vangloriar".
A vitória nos 1200 livre foi muito mais dramática, segundo relatos do próprio Hajós. "Três pequenos botes nos levaram ao mar aberto, que estava realmente bruto. Meu corpo tinha sido lambuzado com uma camada de meia polegada de grossura de graxa, eu estava mais esperto depois da prova dos 100 metros, e tentei me protejer contra o frio. Nós pulamos na água ao tiro de uma pistola, e naquele ponto os botes deixaram os competidores a mercê das ondas para se dirigirem à linha de chegada, para informar o júri do sucesso da saída. Devo dizer que eu temi pelo que poderia acontecer se eu tivesse uma câimbra devido a água fria. Minha vontade de viver completamente sobrepujou meu desejo de vencer. Eu cortei a água com uma determinação poderosa e fiquei calmo apenas quando os botes voltaram na minha direção, e começaram a pegar os competidores entorpecidos que tinham desistido da luta. Na hora eu estava na boca da baía. O barulho da multidão cresceu... Eu cheguei na frente dos outros com uma grande vantagem."
Hajós tinha 13 anos quando ele se sentiu compelido a se tornar um bom nadador depois de seu pai ter se afogado no Rio Danúbio. Em 1895 ele ganhou o título dos 100 livre no Campeonato Europeu não-oficial em Viena. Em 1902 ele foi um membro do primeiro time nacional de futebol húngaro. Hajós se tornaria um arquiteto de sucesso, tendo vencido um prêmio na divisão de arquitetura da "Olympic Art Contest" em 1924. Ele nasceu Arnold Guttmann, mas, seguindo a moda entre os judeus do leste europeu na época, competiu sob um pseudônimo. Mais tarde ele legalmente mudaria seu nome para Hajós.
De todos os Santos
Autor: dtakata
Muita gente pensa que Ricardo Prado foi o único brasileiro, homem, até hoje, a deter um recorde mundial em piscina longa. Ledo engano. Em 1968, José Silvio Fiolo nadou os 100 peito em 1:06.4 no Rio de Janeiro e superou a marca mundial do soviético Vladimir Kosinsky.
Mas, antes dele, um outro brazuca teve a honra de ser o primeiro nadador daqui a superar um recorde mundial no masculino. Foi Manuel dos Santos, que, em 1961, conseguiu o feito na prova nobre da natação: os 100 livre.
A trajetória de Manuel dos Santos Júnior na natação começou em 1952, quando começou a nadar aos 13 anos. Passou pelo Ginásio Koelle de Rio Claro, Internacional de Regatas e Pinheiros. Os grandes resultados não demoraram a aparecer, e com 17 anos conquistou seu primeiro título sul-americano.
Antes do Campeonato Sul-Americano de 1958, Manuel treinava no Internacional de Santos. Seu grande rival era a falta de resistência. O japonês Minoru Hirano, que viria no futuro a ser seu técnico, deu a sugestão de mudança de treinos. Com isso, Manuel venceu os 100 livre no campeonato com 56.5, novo recorde sul-americano e terceira marca mundial para a distância. Seria campeão sul-americano ainda em 1960 e 1962.
Hirano, a partir de então, passou a fazer parte da carreira de Manuel. Em 1960, já treinava no Pinheiros, se preparando para os Jogos Olímpicos de Roma. O nadador havia planejado dar ênfase ao treinamento de virada, seu maior problema, no mês anterior à Olimpíada. No entanto, o treinamento foi prejudicado pela disputa do campeonato Luso-Brasileiro, que foi obrigado a disputar antes dos Jogos Olímpicos. “Esse foi meu erro. Peguei um resfriado e não pude treinar como queria”.
Na final olímpica, o brasileiro, nadando na raia 2, disparou nos primeiros 50 metros. “Mas na hora da virada, estava quase em cima da borda. Bati com o cotovelo e fui ultrapassado por todo mundo. Ainda consegui me recuperar, fiquei na frente de novo, mas aí cansei no final”. Conseguiu a medalha de bronze, em sua conquista mais reconhecida. O técnico australiano disse que o brasileiro seria o melhor do mundo se melhorasse a virada.
A medalha olímpica rendeu convites para nadar em vários países, contra os melhores nadadores do mundo. Em uma dessas competições, o Campeonato Americano de 1961, Manuel nadou contra Stev Clark. Clark venceu os 100 livre com 54.4, recorde mundial. A partir de então, abaixar essa marca passou a ser o grande objetivo do brasileiro.
No dia 20 de setembro de 1961, entrou definitivamente para a história da natação ao estabelecer, no Rio de Janeiro, em uma tentativa isolada, o recorde mundial dos 100 livre com 53.6, tornando-se o primeiro homem a nadar a distância abaixo dos 54 segundos. Foi o primeiro brasileiro, no masculino, a deter um recorde mundial (antes dele, apenas Maria Lenk havia conseguido o feito). O Campeonato Sul-Americano de 1962 em Buenos Aires foi sua última grande competição. “Ganhei os 100 e os 200 do Luis Nicolau. Fui aplaudido pelos argentinos”.
Abandonou a natação aos 22 anos porque era considerado velho demais para os padrões da época. “Os australianos batiam recordes aos 15 anos”, segundo ele. Em 1984, abriu uma academia com seu nome, em São Paulo. Em 1999, abriu a segunda. Ele não dá aulas, mas participa ativamente da administração e do planejamento dos cursos que são direcionados para bebês e crianças. Nada 1500 metros três vezes por semana. Chegou a disputar algumas competições master, mas desistiu. “Os outros eram aposentados, faziam musculação... não tinha condições de continuar”.
Abaixo, uma pequena entrevista que ele concedeu para a Folha de S. Paulo, em 1996.
Pergunta: Que lembrança o sr. tem de Roma?
Manuel dos Santos – Quando chegou a Olimpíada, me preparei para competir. Nem pensava em ganhar. Saí na frente de todo mundo. Quando cheguei nos 50 metros, estava tão entusiasmado que fiz uma péssima virada. A concentração no nado era tão grande que, quando vi, estava em cima. Recomecei a alcançar todo mundo, mas cansei. Puxei muito dos 50 aos 75 metros.
Pergunta: Por que o sr. não disputou os Jogos de Tóquio-64?
Manuel dos Santos – Naquele tempo, com 20 anos o nadador já era velho. Hoje, pelo contrário. Depois, a minha responsabilidade era muito grande. Eu era o único brasileiro. Treinava sozinho. O recorde era 54.4. Eu escrevia “54.4” em papéis, que botava em tudo quanto era lugar. Quando eu estava muito desanimado, até na borda da piscina. Aquele era o objetivo. E isso era estafante. Depois, já tinha o recorde mundial e a medalha olímpica. Treinar já era um castigo muito grande. Ser sustentado pelo pai era chato.
Mas, antes dele, um outro brazuca teve a honra de ser o primeiro nadador daqui a superar um recorde mundial no masculino. Foi Manuel dos Santos, que, em 1961, conseguiu o feito na prova nobre da natação: os 100 livre.
A trajetória de Manuel dos Santos Júnior na natação começou em 1952, quando começou a nadar aos 13 anos. Passou pelo Ginásio Koelle de Rio Claro, Internacional de Regatas e Pinheiros. Os grandes resultados não demoraram a aparecer, e com 17 anos conquistou seu primeiro título sul-americano.
Antes do Campeonato Sul-Americano de 1958, Manuel treinava no Internacional de Santos. Seu grande rival era a falta de resistência. O japonês Minoru Hirano, que viria no futuro a ser seu técnico, deu a sugestão de mudança de treinos. Com isso, Manuel venceu os 100 livre no campeonato com 56.5, novo recorde sul-americano e terceira marca mundial para a distância. Seria campeão sul-americano ainda em 1960 e 1962.
Hirano, a partir de então, passou a fazer parte da carreira de Manuel. Em 1960, já treinava no Pinheiros, se preparando para os Jogos Olímpicos de Roma. O nadador havia planejado dar ênfase ao treinamento de virada, seu maior problema, no mês anterior à Olimpíada. No entanto, o treinamento foi prejudicado pela disputa do campeonato Luso-Brasileiro, que foi obrigado a disputar antes dos Jogos Olímpicos. “Esse foi meu erro. Peguei um resfriado e não pude treinar como queria”.
Na final olímpica, o brasileiro, nadando na raia 2, disparou nos primeiros 50 metros. “Mas na hora da virada, estava quase em cima da borda. Bati com o cotovelo e fui ultrapassado por todo mundo. Ainda consegui me recuperar, fiquei na frente de novo, mas aí cansei no final”. Conseguiu a medalha de bronze, em sua conquista mais reconhecida. O técnico australiano disse que o brasileiro seria o melhor do mundo se melhorasse a virada.
A medalha olímpica rendeu convites para nadar em vários países, contra os melhores nadadores do mundo. Em uma dessas competições, o Campeonato Americano de 1961, Manuel nadou contra Stev Clark. Clark venceu os 100 livre com 54.4, recorde mundial. A partir de então, abaixar essa marca passou a ser o grande objetivo do brasileiro.
No dia 20 de setembro de 1961, entrou definitivamente para a história da natação ao estabelecer, no Rio de Janeiro, em uma tentativa isolada, o recorde mundial dos 100 livre com 53.6, tornando-se o primeiro homem a nadar a distância abaixo dos 54 segundos. Foi o primeiro brasileiro, no masculino, a deter um recorde mundial (antes dele, apenas Maria Lenk havia conseguido o feito). O Campeonato Sul-Americano de 1962 em Buenos Aires foi sua última grande competição. “Ganhei os 100 e os 200 do Luis Nicolau. Fui aplaudido pelos argentinos”.
Abandonou a natação aos 22 anos porque era considerado velho demais para os padrões da época. “Os australianos batiam recordes aos 15 anos”, segundo ele. Em 1984, abriu uma academia com seu nome, em São Paulo. Em 1999, abriu a segunda. Ele não dá aulas, mas participa ativamente da administração e do planejamento dos cursos que são direcionados para bebês e crianças. Nada 1500 metros três vezes por semana. Chegou a disputar algumas competições master, mas desistiu. “Os outros eram aposentados, faziam musculação... não tinha condições de continuar”.
Abaixo, uma pequena entrevista que ele concedeu para a Folha de S. Paulo, em 1996.
Pergunta: Que lembrança o sr. tem de Roma?
Manuel dos Santos – Quando chegou a Olimpíada, me preparei para competir. Nem pensava em ganhar. Saí na frente de todo mundo. Quando cheguei nos 50 metros, estava tão entusiasmado que fiz uma péssima virada. A concentração no nado era tão grande que, quando vi, estava em cima. Recomecei a alcançar todo mundo, mas cansei. Puxei muito dos 50 aos 75 metros.
Pergunta: Por que o sr. não disputou os Jogos de Tóquio-64?
Manuel dos Santos – Naquele tempo, com 20 anos o nadador já era velho. Hoje, pelo contrário. Depois, a minha responsabilidade era muito grande. Eu era o único brasileiro. Treinava sozinho. O recorde era 54.4. Eu escrevia “54.4” em papéis, que botava em tudo quanto era lugar. Quando eu estava muito desanimado, até na borda da piscina. Aquele era o objetivo. E isso era estafante. Depois, já tinha o recorde mundial e a medalha olímpica. Treinar já era um castigo muito grande. Ser sustentado pelo pai era chato.
Rapsódia húngara
Autor: dtakata

A maior nadadora da história da Europa. Assim poderíamos nos referir à húngara Krisztina Egerszegi. Ela é a única nadadora da história, entre homens e mulheres, a conquistar 5 ouros olímpicos individuais, e venceu os 200 costas em três ocasiões, um tricampeonato apenas igualado pela lenda australiana Dawn Fraser.
Alguém poderia argumentar que nadadoras da ex-Alemanha Oriental, como Kornelia Ender e Kristin Otto, brilharam mais que a húngara. Difícil dizer. Em termos de conquistas, talvez observássemos um empate técnico. Mas, em termos de carisma, a húngara vence disparado. E Kornelia Ender admitiu que usou drogas, ainda que sem seu consentimento, durante sua carreira. Kristin Otto jamais adimitiu tal fato, mas todos sabemos que ela também era produto da indústria de doping alemã-oriental. Quanto a Krisztina, toda a Hungria assistiu a gradativa transformação da pequena adolescente em uma grande nadadora, e além de tudo bonitona, e sua epopéia que resultou em muitas e muitas conquistas. Em suma: Krisztina Egerszegi é, sim, a maior nadadora da história da Europa.
Krisztina nasceu no dia 16 de agosto de 1974 e começou a nadar com quatro anos, sob a tutela de Miklos Kiss. Aos 5 anos, ele já percebeu que a garota tinha um talento diferenciado. Possuia um belíssimo estilo de costas, mas o técnico não se afobou e se encarregou de ministrar a natação à pequena Krisztina apenas como um hobby, mas já com futuras intenções. Sua verdadeira formação como nadadora começou aos 12 anos, com o técnico Laszlo Kiss. "Logo percebi que tinha encontrado uma verdadeira pérola, e que sua carreira esportiva deveria ser fomentada com muita responsabilidade", disse ele anos depois.
Em 10 anos, Krisztina se tornaria a melhor nadadora de costas da história, bem como uma excepcional nadadora de medley. As chaves para o sucesso eram treinamentos nos quatro estilos, que evitavam a monotonia, e o desenvolvimento de uma técnica perfeita de costas. Ela aperfeiçoou a pernada de seis tempos com tamanha perfeição que seu técnico certa vez declarou que "ela ficou tão boa naquilo que eu comecei a dizer que ela nasceu fazendo aquela pernada".
Ainda uma garota magra e tímida, conquistou suas primeiras vitórias no campeonato nacional em 1987. Disputou o Campeonato Europeu de 1987, terminando na quarta posição nos 200 costas - isso com apenas 12 anos. Mas a consagração definitiva viria nos Jogos Olímpicos de Seul/1988. Com 14 anos, se tornou a mais jovem nadadora campeã olímpica da história até então, nos 200 costas. Entre as finalistas da prova, ela, com 45kg, era pelo menos 19kg mais leve do que suas oponentes. De quebra, levou a prata nos 100 costas. Uma de suas principais concorrentes, a alemã-oriental Cornelia Sirch, predisse à época: "Ela é uma grande nadadora, e está em grande forma. Ela é muito nova e tenho certeza que tem um grande futuro. Estou certa que ela iniciará uma nova era no nado costas".
Não demoraria muito tempo para as palavras de Sirch se tornarem realidade. Depois de três vitórias no Campeonato Mundial de Perth/1991, ela disputou aquele que é considerado o melhor campeonato de sua vida: o Europeu de 1991, em Atenas, onde bateu recordes mundiais nos 100 e 200 costas. Seu tempo de 2:06.62 nos 200 é até hoje a melhor marca da história da prova. Chegou às Olimpíadas de Barcelona/1992 como a grande estrela. Bateu quatro recordes olímpicos, entre eliminatórias e finais, e venceu os 100 e 200 costas e os 400 medley - essa última prova traz boas recordações a Krisztina. Ela coloca essa vitória no mesmo patamar de Atenas/1991. A fase de Krisztina era tão boa que arriscou um 200 borbo no Europeu de Sheffield/1993 e venceu.
Mas nem tudo sempre foram flores na carreira dessa maravilhosa nadadora. No Mundial de Roma/1994, ficou com a prata nos 200 costas, um resultado que considerou satistafório. Mas ficou decepcionadíssima com o 5º lugar nos 100 costas. Anunciou, então, que se prepararia apenas para os 200 costas e os 400 medley para as Olimpíadas de Atlanta/1996. Tanto que nadou (e venceu) apenas essas duas provas no Europeu de Viena, em 1995. Em Atlanta, venceu pela 3º vez consecutiva sua especialidade, os 200 costas. Sua margem de vitória, 4.15 segundos, foi a maior da história olímpica em uma prova de 200 metros feminina. Conquistou um bronze nos 400 medley e, nas eliminatórias do revezamento 4x100 medley, abriu a parcial de costas para 1:01.15, tempo melhor que a vencedora da prova individual, a americana Beth Botsford. Sobre isso, Krisztina declararia: "Não me importo muito. Nos 100, tudo pode dar certo, mas um erro pode fazer você não conseguir se recuperar e eventualmente vencer. Além disso, em um revezamento, temos companhia e uma grande motivação. O grande costista da Alemanha Oriental, Roland Matthes, por exemplo, sempre nadava melhor em revezamentos do que nas provas individuais". O certo é que Krisztina hoje poderia ter 6 medalhas olímpicas de ouro individuais, ao invés das "apenas" 5, que já fazem dela a nadadora mais concecorada da história olímpica em provas individuais.
Depois de Atlanta, diminuiu o ritmo dos treinamentos (que chegava a 8 horas diárias, 80 mil metros semanais), se dedicou a competições menores e gradativamente se afastou da natação, até abandonar de vez o esporte. Se aposentou com apenas 22 anos, com o status de uma das maiores nadadoras de todos os tempos. Hoje, casada e mãe de um filho, administra um restaurante chamado na Hungria chamado Egerljuk (tradução: casa do rato) – “Eger”, em húngaro, quer dizer rato. Por causa disso, no início da carreira, ela era chamada de “a pequena ratinha”. Hoje, seus compatriotas a tratam por um apelido bem mais nobre: Rainha Krisztina.