Menino prodígio?

Autor: dtakata

O texto abaixo foi publicado neste blog no dia 6 de março de 2004. Lendo-o hoje, é interessante constatar o que aconteceu depois de seis anos. Comentários logo após o texto.




Assisti ontem uma reportagem na TV Cultura e não poderia deixar de citá-la aqui, nem de dar minha opinião.

A emissora fez uma reportagem com Alfredo Marchetti, um jovem nadador (e põe jovem nisso: 9 anos!) de Santa Catarina. Pasmem: ele treina 5 horas por dia (entre natação, musculação e alongamentos) e nunca perdeu nenhum torneio que disputou. Chegou a disputar uma espécie de Mundial para sua idade nos Estados Unidos, onde conquistou o troféu de melhor nadador do mundo. Na verdade, a história de Alfredo já foi destaque há algum tempo, no jornal O Estado de São Paulo.

Futuro fenômeno? Há controvérsias. Todos sabem que grandes resultados nas categorias inferiores não implicam em excepcionais resultados nas categorias maiores (simples constatação: veja, por exemplo, a tabela de recordes paulistas de petiz e infantil, e conte quantos daqueles nadadores estão entre os melhores do Brasil hoje, ou até mesmo se continuam a nadar).

Parte disso se deve à cobrança excessiva dos pais das crianças, quando estes deveriam se preocupar em deixar a criança curtir a infância, nadar por prazer, ao invés de exigir vitórias nas competições. O pai de Alfredo, Caio Marchetti, diz que já começou um planejamento para que o menino chegue às Olimpíadas de 2008 pronto para conquistar medalhas de ouro, e se tornar, aos 14 anos, o mais jovem nadador recordista olímpico.

Será que vale a pena sujeitar a criança a uma rotina tão dura de treinamentos visando um objetivo quase impossível? Digo quase impossível porque muitas coisas podem acontecer até 2008: a criança enjoar da natação (duvido que alguém não conheça ex-nadador que abandonou a natação por causa disso), seu rendimento cair (novamente, o caso da maioria dos campeões nas categorias menores), entre outros problemas. A formação de um campeão olímpico não é simples, e exige uma conjunção de diversos fatores, inclusive sorte. Não estou jogando praga, e torço para que ele se torne um campeão (o Brasil precisa disso!). Mas se isso não acontecer, quais serão as sequelas para o garoto e para o pai?

Frase do pai: "Está mais do que provado que os verdadeiros vencedores são formados muito cedo". Quão "cedo"? 13, 14 anos? Concordo, mas nunca 9, 10 anos. Dei uma olhada nos rankings all-time americanos para nadadores menores de 10 anos em piscinas de jardas: Michael Phelps, o maior nadador do mundo, conhecido prodígio precoce, não figura no topo em nenhuma prova dos rankings. Achei o nome dos campeões mundiais Aaron Peirsol, Jenny Thompson e Anthony Ervin em posições intermediárias. E verdadeiros fenômenos da natação de lá, como Amanda Beard (vice-campeã olímpica com 14 anos), Natalie Coughlin, Gary Hall Jr, Ian Crocker e Ed Moses, nem sequer figuram entre os 100 melhores! Para os rankings de 11-12 anos, a situação para estes nadadores melhora um pouco, mas nem sombra dos nadadores fenomenais que eles seriam anos mais tarde (a melhorzinha é Amanda Beard: 65ª nos 50 peito).

E mais: alguém já ouviu falar de um certo Chas Morton? No distante ano de 1982, ele fez tempos que ainda fazem dele o recordista americano sub-10 anos nos 100 livre e 50 borbo, e 3º nos 100 borbo. Onde foi parar?

E o pai continua: "Infelizmente, no Brasil, os pais acham que a competitividade prejudica a criança". Infelizmente para ele, não só os pais acham isso, mas também psicólogos e até nosso grande campeão Gustavo Borges, que coloca: "Acho que não vai fazer bem para um nadador de 9, 10 anos já pensar em traçar um objetivo tão ambicioso. O mais importante para ele nessa idade é se divertir, gostar do esporte, e não pensar em Olimpíada de 2008. Acho que vai fazer muito mal para a cabeça dele". Palavra de quem entende.

A Austrália, a exemplo do Brasil, sequer se preocupa em reconhecer recordes para nadadores tão novos. Ian Thorpe, o nadador mais jovem campeão mundial da história (15 anos), não possui nenhum recorde australiano para a categoria 13 anos. Os grandes nomes australianos da atualidade começam aparecer como recordistas lá pelos 15, 16, 17 anos, que já é idade de tomar porrada - e não 9, 10 anos...

Desejo boa sorte ao garoto, e quero dizer que não torço contra não - o tanto que escrevi acima mostra que verdadeiramente me importo e me preocupo com sua carreira.



Estamos em 2010. Este garoto tem hoje 16 anos. De acordo com o "planejamento" de seu pai, hoje Alfredo deveria ao menos estar disputando estaduais e brasileiros de categoria. Onde está ele? Uma busca por seu nome no Google só encontra textos que remetem ao período entre 2003 e 2004, quando ele era tratado como futuro fenômeno. Nenhuma ocorrência atual.

Em 2008, um leitor não-identificado do blog fez este comentário:

estudei com o Alfredo quando tinha 9 anos. lembro dos professores e psicólogos falarem com ele a sós. lembro que eles falavam do pai dele, que não era certo ele não se preocupar com os estudos só porque seria um nadador de sucesso. hoje temos 14 anos e fazem 2 que não o vejo. sei que 2 anos atras ele ainda nadava. estamos em 2008, é engraçado ler essa reportagem agora. será que ele participará das olímpiadas?

Sem mais.

Marcos Chaiben (1958-2010)

Autor: dtakata

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"One by one
Only the Good die young
They're only flyin' too close to the sun
And life goes on
Without you"
(Brian May)

2010 - Um ano que NÃO promete

Autor: dtakata

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Guilherme Freitas escreveu há alguns dias um texto para a Bestswimming intitulado 2010 - Um ano que promete (para lê-lo, clique aqui). Aqui, apresentamos o outro lado da moeda.

2010 é um ano de transição. Assim como foram 2002 e 2006. Anos intermediários de ciclos olímpicos, sem disputas das principais competições da modalidade (Olimpíada e Mundial de longa). Não por isso deixará de haver competições interessantes: Pan-Pacífico, Jogos da Comunidade Britânica, Campeonato Europeu - isso tudo para ficar em piscina de 50m. Convenhamos, um Europeu de longa vale muito mais que um Mundial de Curta!

No entanto, dos quatro anos do ciclo olímpico atual, 2010 será o único no qual os melhores do mundo não se enfrentarão em sua melhor forma. Phelps x Biedermann? Cielo x Bernard? Só no ano que vem.

Além disso, entraremos num período no qual o mundo terá que se acostumar a nadar sem os trajes tecnológicos que povoaram as piscinas nos dois últimos anos. Por tradição, o ano que antecede em dois anos a próxima Olimpíada tem menos recordes mundiais que os anos seguintes (em 2002, tivemos 12 recordes, contra 18 em 2003 e 17 em 2004. 2006 viu 19 recordes, contra 55 de 2008 e 64 de 2009). Mas por causa dos fortíssimos tempos alcançados em 2008 e 2009 impulsionados pelos trajes, não esperem nenhum recorde mundial em 2010. Um ou outro pode até sair, mas será algo inesperado.

Tudo isso, lembrando, considerando apenas piscina longa. O Mundia de Curta, que será em dezembro nos Emirados Árabes, representa muito pouco. Como já dizia (exageradamente) Alexander Popov, "piscina curta é um tipo de brincadeira de criança".

Por fim, 2010 é ano de Copa do Mundo de futebol. Por isso, nada do que César Cielo (ou outro nadador brasileiro) fizer em um ano sem Mundial ou Olimpíada será suficiente para ocupar as manchetes esportivas do jeito que foi em 2008 e 2009.

Obviamente os nadadores não querem saber disso e continuarão motivados em busca de seus objetivos. Além disso, 2011 e 2012 estão aí. Mas, por tudo que foi escrito acima e, principalmente, comparando com os dois últimos anos e com os dois anos a seguir, 2010 é um ano que não promete!

Derrotando até a morte

Autor: dtakata

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Brooke Bennett foi o último grande nome da natação de fundo dos Estados Unidos. E lá se vão quase 10 anos de sua consagração olímpica, em Sydney. Desde então, nenhum americano conquistou medalhas de ouro nos 400m, 800m e 1500m livre em Jogos Olímpicos. Kate Ziegler chegou a vencer os 800m e 1500m nos Mundiais de 2005 e 2007, mas decepcionou na Olimpíada de Pequim. Por isso, até hoje Bennett é considerada um parâmetro da natação de longa distância para os jovens americanos.

Sua primeira grande glória, conseguida com apenas 16 anos, foi a vitória olímpica nos 800m livre em 1996, medalha que ela dedicou ao seu avô, falecido dias antes da conquista. Também representou a passagem do bastão da melhor fundista americana até então - Janet Evans, bicampeã olímpica dos 800m em 1988 e 1992, em Atlanta terminou na quinta posição na última prova de sua carreira. Em 1998, outro ouro no Mundial de Perth. Nos Jogos de Sydney, em 2000, vitórias nos 400m e 800m livre, esta última com recorde olímpico. Justamente nessa época em que reinava absoluta e ninguém ameaçava seu domínio, ela precisou passar por cirurgias nos dois ombros em 2001 (ao observar seu estilo de nado, fica fácil entender a razão das lesões). Sua carreira a partir de então não foi mais a mesma. Em 2004, ficou na terceira posição nos 800m livre na Seletiva Olímpica Americana e não se classificou para os Jogos de Atenas.

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Essa é a história que todos conhecem de Brooke Bennett. Poucos sabem que, em 2006, ela retornou às piscinas sob o comando de Peter Banks, o técnico dos tempos de glória, na esperança de voltar aos melhores dias. Como isso não aconteceu, em janeiro de 2008 ela oficialmente assinou os papéis de sua aposentadoria da natação competitiva.

E poucos também ficaram sabendo que a vida de Bennett esteve por um fio no final do ano passado. No dia 30 de outubro, ela saía de seu trabalho e dirigia seu BMW, quando um dos pneus estourou. O carro capotou duas vezes e atingiu uma árvore. Ela foi levada imediatamente a um hospital, onde recebeu alguns pontos na cabeça atingida por pedaços de vidro e passou por uma cirurgia por causa de uma fratura na pélvis, a qual teve que receber dois pinos.

Abaixo, alguns trechos de uma entrevista que ela concedeu para o site Swimnetwork.

"A recuperação é lenta, segui direitinho as ordens de ficar na cama por 8 semanas. Fui autorizada a voltar à minha rotina somente no último dia 21 (de janeiro). Tenho nadado para ajudar na recuperação".

"Estou trabalhando em um canal de esportes local. Sou apresentadora de esportes da high school da área de Tampa Bay/Central Florida".

"Disputei meu primeiro mundial em 1994, aos 14 anos, por isso desde cedo me acostumei a ter um gravador, um microfone e uma câmera na minha frente. Como agora sou eu que farei as reportagens com as jovens estrlas da high school, posso entender seus sentimentos e emoções, o que me ajuda a ter uma boa história".

"Após o acidente e de outras coisas que aconteceram em minha vida, acredito fortemente que as coisas acontecem por uma razão. Se são coisas boas ou ruins, felizes ou tristes, todas elas fazem de você uma pessoa mais forte".

"Não posso acreditar que, após os Estados Unidos serem tão fortes nas provas de fundo desde a época de domínio da Janet Evans nos anos 80, nós não tivemos nenhuma finalista nos 800m livre nos Jogos de Pequim".

"Para os próximos anos, aposto em Ryan Lochte, que lida muito bem em viver na sombra de Michael Phelps e pode ser um dos melhores da historia, e em Chloe Sutton, uma grande fundista".

"A natação me ensinou que você pode conseguir qualquer coisa que você colocar em sua mente. Nos últimos dois anos, penei um pouco para me encontrar fora da piscina, mas jamais desisti dos meus objetivos. Sonhe grande - você pode conseguir qualquer coisa".


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Futebol x outros

Autor: dtakata

Em dezembro do ano passado, publicamos um post sobre a nova revista de natação brasileira, a iSwin, com lançamento previsto para julho deste ano (para ler o texto, clique aqui. Nunca na história do país uma revista de natação vingou. Tentativas não faltaram, mas nenhuma conseguiu se sustentar por muito tempo.

O texto abaixo foi retirado do blog de Juca Kfouri, jornalista que se diz esportivo mas que na verdade se dedica quase que integralmente ao futebol. Na verdade, o texto é antigo, de 1999, mas traz, com argumentos e fatos, uma das possíveis razões de publicações esportivas não darem certo no Brasil.

Por que só falamos de futebol

Primeiro foi o José Trajano, com a paixão e a generosidade que o caracterizam.

Depois, o José Roberto Torero, sempre criativo e original.

Ambos preocupados em chamar a atenção para os brasileiros que estão no Pan-Americano, os primos pobres do esporte nacional, quase monopolizado pelos jogadores de futebol.

A verdade é que todos nós damos muito menos importância a nossos atletas olímpicos do que aos boleiros.

Conheço bem essa história – e não é de hoje.

Dezenas de vezes, quando dirigia a revista “Placar”, fui questionado em escolas de jornalismo e de educação física sobre o pouco espaço dedicado aos outros esportes.

Sempre respondi que os outros não vendiam.

Nem mesmo quando houve a célebre explosão do vôlei (um Maracanãzinho lotado equivale a um Maracanã quase vazio – e nenhuma revista de qualquer outro esporte jamais prosperou no Brasil).

Havia reações indignadas até, como se eu fosse um escravo do lucro, um capitalista sem alma.

Então, entre outras coisas, explicava que não era o dono da revista.

Até que um belo dia, em 1984, porque também o desorganizado futebol brasileiro não permitia uma revista semanal de sucesso, a Abril resolveu apostar numa publicação mais eclética, e criamos “Placar Todos os Esportes”, com equipe de primeira, consultores da melhor qualidade e acabamento refinado.

Era a tentativa de se fazer a famosa, e extremamente bem-sucedida, “Sports Illustrated” no Brasil.

Após o primeiro número, recebi um bilhete entusiasmado de Roberto Civita, o dono da Abril.

“Enfim, virei leitor de Placar. Parabéns!”.

O sinal vermelho havia sido aceso numa semana em que a velha “Placar” tinha vendido menos do que 100 mil exemplares, número mágico.

Pois bem. Quatro ou cinco semanas depois do lançamento da nova fórmula, Civita me telefona para fazer novo elogio, e eu, preocupado, o alerto que as vendas não eram animadoras, que tínhamos vendido apenas 75 mil exemplares na semana anterior. Ouço dele uma previsão tranqüilizadora. “Estamos trocando de público. Não vou me assustar se chegar a cair até uns 35 mil. Depois, vai reagir, porque o caminho está certo, a revista está ótima”.

Pouco tempo depois, já apavorado, encontro o patrão numa solenidade e informo: “Roberto, estamos quase atingindo seu objetivo. Na semana passada, vendemos 40 mil”. Foi o que bastou para, em seguida, “Placar” voltar a ser uma revista basicamente de futebol e resistir ainda mais cinco anos como semanal.

Enfim, a questão é parecida com aquele anúncio de biscoitos: o Brasil é monoesportivo porque a imprensa só fala de futebol ou a imprensa só fala de futebol porque o Brasil é monoesportivo?

Tendo a achar que a segunda hipótese é a correta.

Rumo ao tri

Autor: dtakata

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O japonês Kosuke Kitajima, bicampeão olímpico dos 100m e 200m peito, foi notícia na última semana depois de vencer as 100 jardas de peito no GP de Long Beach. Kitajima derrotou Michael Phelps, que terminou em 5º lugar. O japonês não disputa uma competição importante desde os Jogos Olímpicoas de Pequim. Nesse período, tirou longas férias, foi treinar nos Estados Unidos e aos poucos voltou às competições. Seu principal e único objetivo é conquistar o tricampeonato nas provas de peito nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012.

Assim, ele almeja ser o primeiro nadador no masculino a conquistar um tricampeonato olímpico. Muitos já tentaram, mas na natação esse é um feito conquistado apenas por mulheres. A australiana Dawn Fraser venceu os 100m livre em 1956, 1960 e 1964, e a húngara Krisztina Egerszegi foi campeã dos 200m costas em 1988, 1992 e 1996.

Outros dois nadadores também podem conquistar três vitórias olímpicas seguidas em 2012. Michael Phelps é o que tem mais chances: é o atual bicampeão dos 200m e 400m medley e 100m e 200m borboleta. Ele já declarou que pretende abandonar os 400m medley, mas no GP de Long Beach surpreendeu e nadou as 400 jardas medley, vencendo com um tempo bem próximo de seu melhor. Seu programa de provas para Londres ainda é uma incógnita, já que ele pode querer investir em provas de velocidade, de livre e de costas. Até mesmo os 200m medley não são uma certeza. 100m e 200m borbo parece garantido que ele nade. O outro aspirante a tricampeão é Aaron Peirsol, nos 100m costas.

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O site Swimnews.com montou o panorama dos potenciais tricampeões em Londres/2012, baseado no programa de provas de Pequim/2008. Quem será que consegue primeiro?

Dia 1: Phelps nos 400m medley, caso ele volte a nadar a prova.
Dia 2: Kitajima nos 100m peito.
Dia 3: Peirsol nos 100m costas.
Dia 4: Phelps nos 200m borbo, talvez a conquista mais provável pelo cenário de hoje.
Dia 5: Kitajima nos 200m peito.
Dia 6: Phelps nos 200m medley.
Dia 7: Phelps nos 100m borbo.

Na natação masculina, são precisamente 17 nadadores que conquistaram bicampeonatos olímpicos, mas que por motivos variados não conseguiram repetir as conquistas três vezes. Confira abaixo quem são eles e o que os impediu se se tornarem tri:

50m livre: Alexander Popov, RUS (1992, 1996)
Tentou o tricampeonato em 2000, meses depois de ter batido o recorde mundial da prova, mas terminou apenas na sexta posição. Também nadou em 2004, mas não passou das eliminatórias.

50m livre: Gary Hall Jr, USA (2000, 2004)
Foi medalha de prata na prova em 1996. O sonho do tri não passou da Seletiva Olímpica Americana de 2008, quando não se classificou para a equipe que disputaria os Jogos de Pequim.

100m livre: Duke Kahanamoku, USA (1912, 1920)
A lenda havaiana certamente seria tricampeã se os Jogos de 1916 não tivessem sido adiados pela Primeira Guerra Mundial. Em 1924, era um dos favoritos, mas nada pôde fazer contra a força de Johnny Weissmuller.

100m livre: Johnny Weissmuller, USA (1924, 1928)
Primeiro homem a nadar abaixo do minuto, Weissmuller se preparava para os Jogos de 1932 quando recebeu uma proposta para anunciar trajes de banho. Ao aceitar, encerrou a carreira de nadador, pois, renunciando a condição de amador, não poderia mais participar dos Jogos Olímpicos. Por isso, jamais tentou o tricampeonato.

100m livre: Alexander Popov, RUS (1992, 1996)
Assim como nos 50m livre, Popov teve duas oportunidades de ser tri nos 100m: em 2000, ficou com a prata atrás de Pieter van den Hoogenband. Em 2004, parou na semifinal da prova.

100m livre: Pieter van den Hoogenband, NED (2000, 2004)
Em 2008, terminou na quinta posição. Não foi tri, mas foi o único a nadar quatro finais olímpicas nos 100m livre (foi 4º lugar em 1996).

400m livre: Murray Rose, AUS (1956, 1960)
Uma lenda australiana, Rose foi o maior medalhista olímpico australiano no masculino até Ian Thorpe. Em 1964, ainda estava na ativa e poderia ter tentado o tri nos 400m livre. Mas ele estudava e treinava nos Estados Unidos e não conseguiu viajar para a Austrália para disputar a Seletiva Olímpica. Mesmo tendo ele batido o recorde mundial dos 1500m meses antes dos Jogos de Tóquio, os dirigentes australianos não abriram exceção e não o deixaram disputar a Olimpíada.

400m livre: Ian Thorpe, AUS (2000, 2004)
Em 2006, o Thorpedo australiano anunciou sua aposentadoria.

1500m livre: Mike Burton, USA (1968, 1972)
Depois de uma vitória chorada em 1972 (quase não se classificou para a Olimpíada na Seletiva Americana), se aposentou e não teve chance de mais um ouro.

1500m livre: Vladimir Salnikov, URS (1980, 1988)
É um caso semelhante ao de Duke Kahanamoku nos 100m livre: Salnikov não pôde disputar os Jogos de 1984 devido ao boicote político, e quase certamente seria tricampeão, pois na época seu domínio era indiscutível. Seul/1988 foi sua última competição.

1500m livre: Kieren Perkins, AUS (1992, 1996)
Em 1996, estava desacreditado e foi bicampeão. Em 2000, já uma lenda, estava mais desacreditado ainda, mas surpreendeu e se classificou para a Olimpíada de Sydney. Nos Jogos, não foi páreo para a juventude de Grant Hackett, terminando com a prata.

1500m livre: Grant Hackett, AUS (2000, 2004)
Chegou a Pequim/2008 como favorito e fez a segunda melhor marca da história da prova nas eliminatórias. Na final, piorou o tempo e terminou atrás do tunisiano Oussama Mellouli.

100m costas: Warren Kealoha, USA (1920, 1924)
Membro de um time havaiano que incluía Duke Kahanamoku, Keloha permaneceu praticamente invicto nos 100m costas durante sua carreira. Só perdeu uma vez, em 1926, para Johnny Weissmuller, e então resolveu se aposentar.

100m costas: David Theile, AUS (1956, 1960)
Após os Jogos de 1960, a FINA anunciou que os 100m costas não seriam disputados em 1964 para dar lugar aos 200m, em uma decisão controversa. Theile, velocista, se viu sem objetivos e decidiu encerrar a carreira. Em 1968, a FINA resolveria adotar conjuntamente os 100m e 200m costas, os quais mantêm até hoje.

100m costas: Roland Matthes, GDR (1968, 1972)
O maior nadador de costas da história, ficou invicto de 1967 a 1974. Em 1976, já estava em decadência. Tentou o tricampeonato nos 100m costas, mas não passou do terceiro lugar.

200m costas: Roland Matthes, GDR (1968, 1972)
Se nos Jogos de 1976 ele tentou o tri nos 100m costas, Matthes, já envelhecido, nem se arriscou nos 200m.

200m peito: Yoshiyuki Tsuruta (JPN) (1928, 1932)
Primeiro nadador japonês campeão olímpico, Tsuruta terminou a faculdade no mesmo ano de seu bicampeonato e resolveu seguir carreira profisssional fora das piscinas.

200m medley: Tamás Darnyi, HUN (1988, 1992)
400m medley: Tamás Darnyi, HUN (1988, 1992)

Darnyi não chegou a tentar o tricampeonato das provas de medley, pois se aposentou às vésperas do Mundial de 1994. Mas poderia ter vencido as provas em 1984, caso a Hungria não tivesse aderido ao boicote político no Jogos de Los Angeles.

400m medley: Tom Dolan, USA (1996, 2000)
Asmático, com capacidade respiratória 20% menor que a de uma pessoa normal, Dolan se desgastava muito nos treinos e resolveu se aposentar após o bi olímpico dos 400m medley. Ensaiou uma volta em 2002, visando os Jogos de 2004, disputou algumas competições, mas logo se retirou novamente.

Um presente estrelado. E o futuro?

Autor: dtakata

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Se César Cielo saísse da piscina do Pinheiros hoje e anunciasse sua aposentadoria, ele não só já estaria garantido na história como o maior nadador brasileiro como também um dos maiores esportistas do país em todos os tempos. Em esportes individuais, comparativamente, poucos alcançaram feitos semelhantes a ele. Podemos citar Adhemar Ferreira da Silva, Maria Esther Bueno, Robert Scheidt, Torben Grael, Gustavo Kuerten... e a lista pára por aqui.

Com o recorde mundial de 20.91 dos 50m livre conseguido hoje no Open CBDA, ele completa a verdadeira trinca desejada por todo atleta em sua prova: campeão olímpico, campeão mundial e recordista mundial. O resto (Copa do Mundo, Mundial de Curta, Pan-Americano, Pan-Pacífico) não faz muita diferença no nível que ele chegou. A propósito, é o único da história a ostentar os três feitos simultaneamente nos 50m livre! A cereja no bolo foi enfim ter conseguido o recorde tão perseguido justamente na piscina do Pinheiros, seu clube, sua casa. Cesão soube controlar bem seu emocional depois de ter ficado a oito centésimos do antigo recorde (20.94 do francês Frederick Bousquet) na tarde de ontem.

Curiosamente, o recorde vem exatamente quatro anos depois que Kaio Márcio estabeleceu o recorde mundial dos 50m borboleta em piscina curta, em 17 de dezembro de 2005, em Santos. Antes daquilo, o último recorde mundial brasileiro havia acontecido sete anos antes, no revezamento 4x100m livre masculino, também em piscina de 25m. Desde 2005, contando o recorde de Kaio e este de Cielo, foram nada menos que seis marcas mundiais conquistadas por brasileiros! Cielo, aliás, é o segundo brasileiro na história a conseguir dois recordes mundiais em piscina de 50m. Antes dele, somente Maria Lenk, nos 200m e 400m peito.

Como já foi dito, se Cielo se aposentasse hoje, sairia das piscinas para virar mito. O que mais ele pode almejar? Bem, em termos de conquistas, falta aquela que talvez seja a mais importante para os velocistas: o ouro olímpico dos 100m livre, a prova nobre da natação. É exatamente o que falta para coloca-lo no mesmo patamar de Pieter Hoogenband, Alex Popov, Matt Biondi e outros. E em termos de objetivos pessoais, só ele poderá dizer.


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Falando em 100m livre, anteontem Cesão fez sua terceira melhor marca, com 47.13. Hoje, abrindo o revezamento 4x100m livre, ainda pilhado pelo recorde mundial, fez 47.29, seu quarto melhor tempo. Agora ele tem três dos seis melhores tempos da história da prova:


1. 46.91   César Cielo, BRA    Campeonato Mundial        Roma        30/07/2009
2. 46.94   Alain Bernard, FRA  Campeonato Francês        Montpellier 23/04/2009
3. 47.05sf Eamon Sullivan, AUS Jogos Olímpicos           Pequim      13/08/2008
4. 47.09r  César Cielo, BRA    Campeonato Mundial        Roma        26/07/2009
5. 47.12   Alain Bernard, FRA  Campeonato Mundial        Roma        30/07/2009
6. 47.13   César Cielo, BRA    Troféu Daltely Guimarães  São Paulo   16/12/2009


Nos 50m livre, seu domínio é mais evidente: quatro das cinco melhores performances de todos os tempos.


1. 20.91  César Cielo, BRA   Open CBDA                São Paulo    18/12/2009
2. 20.94  Fred Bousquet, FRA Campeonato Francês       Montpellier  26/04/2009
3. 21.02  César Cielo, BRA   Troféu Daltely Guimarães São Paulo    17/12/2009
4. 21.08  César Cielo, BRA   Campeonato Mundial       Roma         01/08/2009
5. 21.14b César Cielo, BRA   Campeonato Americano     Indianápolis 09/07/2009 


Ele ainda terá uma outra chance para melhorar seu tempo abrindo o revezamento 4x50m livre, amanhã de manhã. Depois disso, o que acontecerá, com o advento do fim dos trajes tecnológicos? Certamente estes recordes durarão algum tempo. Como prever 2010?

Um estudo pode ser feito observando os tempos líderes dos rankings mundiais dos 100m livre masculino nos últimos 50 anos, até 2007, quando todos ainda nadavam apenas com trajes têxteis. O gráfico a seguir ilustra esse panorama:


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Os pontos representam os tempos líderes dos rankings mundiais. A linha é uma função obtida com o objetivo de estabelecer uma relação entre tempo e ano. Com o intuito de prever qual será o tempo líder do ranking mundial dos 100m livre em 2010, obviamente não podemos considerar os tempos dos últimos dois anos, conseguidos com trajes hi-tech. Com a função obtida de 1958 a 2007, técnicas estatísticas de projeção e margens de erro e conhecimento de causa, podemos afirmar que o melhor tempo do mundo de 2010 ficará entre 47.60 e 48.20. Nada de 46 alto ou 47 baixo. Mas estamos falando da prova do maior esportista brasileiro da atualidade e que caminha para entrar na história da natação mundial. Qualquer barreira é mais uma motivação. Tomara que ele leia este texto e mande essa previsão para o espaço!

Entrevista: Gabriella Silva

Autor: dtakata

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Quando ainda usava uniforme escolar no Rio de Janeiro, Gabriella Machado e Silva disse a seu pai: “um dia vou disputar as Olimpíadas”. Hoje, aos 20 anos, ela pode se gabar de ter realizado seu sonho de criança. E também de já ter alcançado muito mais. Tanto que ninguém titubeará se for perguntado quem é a melhor nadadora brasileira da atualidade. Fabíola Molina é imbatível em termos de conquistas e longevidade e Joanna Maranhão tem o melhor resultado feminino do país em Olimpíadas, mas nos últimos anos ninguém obteve resultados mais expressivos que Gabriella.

Foram anos produtivos e permeados por muita emoção. O choro no pódio no Pan-Americano do Rio em 2007, a vibração ao conquistar a vaga olímpica no ano passado, o 7º lugar nos 100m borboleta em Pequim e a 5ª colocação na mesma prova no Mundial de Roma, este ano, são os momentos mais lembrados. Mas este último ainda atormenta os sonhos da nadadora. Depois de ter sofrido com uma infecção alimentar na véspera de sua prova, se classificou na rabeira para a semifinal e também para a final, quando surpreendeu muitos e perdeu a medalha de bronze por oito centésimos. O fato de ter ficado doente não é o que lhe tira o sono, e sim o deslize cometido na chegada da prova.

Mas, como ela mesma diz, “todas as coisas que vão acontecendo de ruim, erros que a gente vai cometendo, a gente vai aprendendo para o próximo passo”. E uma coisa que ela sabe muito bem é ser firme nos seus objetivos. Saiu de casa cedo, aos 16 anos, para fugir da falta de estrutura dos clubes cariocas. Depois de uma breve passagem pelo Minas Tênis Clube, se encontrou no Pinheiros, onde nada desde 2006, e garante que não tem planos, por enquanto, de treinar no exterior.

Gabriella gentilmente nos recebeu no apartamento de sua família, na Zona Norte do Rio de Janeiro, para uma entrevista. Uma entrevista cheia de afirmações e expressões fortes, decididas. Ela ainda se recuperava da cirurgia no ombro esquerdo, feita para corrigir um problema de frouxidão ligamentar que a atormentou muito este ano. Sob os curativos, via-se os anéis olímpicos tatuados. Mas o maior sonho de Gabriella, o de ganhar uma medalha olímpica, segue intacto. A julgar pelas suas palavras determinadas, típicas dos grandes campeões, e pelos obstáculos que ela teve que enfrentar para chegar onde chegou, a natação feminina brasileira ainda terá muitas conquistas inéditas para comemorar.

A entrevista foi feita alguns dias antes do Rio de Janeiro ter sido escolhida sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Vamos começar pelo final: como foi a cirurgia? Como vai a recuperação?
Eu estava bem tranquila, porque eu já sabia dessa operação desde abril. Tenho problema com esse ombro desde os 12 anos, então é uma coisa com a qual sempre convivi durante minha carreira. Sempre foi uma coisa muito ruim, porque nunca consegui fazer todos os treinos nem completar nenhuma temporada de treinamentos. No ano passado, tive umas duas ou três sub-luxações. Esse ano, no período de um mês, tive mais quinze. Qualquer coisa que eu fazia o meu ombro sub-luxava, até pegar um copo d'água, e obviamente era uma dor insuportável. Eu faço fisioterapia por causa de um problema nas costas que tenho há dois anos, e um dia na fisioterapia eu tive essa sub-luxação e o ombro não voltou ao lugar, que é o que normalmente acontece. A meu fisioterapeuta colocou de volta. Parecia que tava travando meu braço, que eu sentia ele solto e depois eu sentia ele travar de tanta dor. Ele falou "olha Gabi, isso ai que você está sentindo, está travando de tanta dor porque seu ombro está saindo do lugar", e eu nem sabia que estava. Aí eu marquei um médico.

Isso esse ano?
Isso tudo esse ano, e ele falou que agora já era cirúrgico por causa dessa frouxidão (ligamentar), que nasci com ela. Tenho isso (frouxidão) no meu pé, no meu cotovelo, no joelho, nos dois ombros, na coluna, em tudo. Só que no ombro esquerdo estava pior. Ele me falou em abril que eu teria que operar, e nessa época ainda não tinha acontecido (Troféu) Maria Lenk, Mundial, nem nada. Mas eu estava sentindo tanta dor que eu fiquei meio até que aliviada.

De ter descoberto o problema?
É, pelo menos iria operar e resolver o problema, já que a fisioterapia não estava adiantando. Meu médico conversou com meu técnico (Alberto Silva, o Albertinho) e eles decidiram que eu poderia esperar pela operação até setembro. Então continuei tentando cumprir a temporada o máximo que deu, mas até o Maria Lenk (em maio deste ano) eu treinei pouquíssimo.


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No Troféu Maria Lenk de 2009


Inclusive durante o Maria Lenk ouviam-se comentários do tipo "não sei como ela está nadando tão bem, por causa do ombro, não treinou direito e tal".
É, no Maria Lenk foi complicado. Nem digo que cheguei lá desanimada. A minha primeira prova eu nadei super bem, que foi os 50m livre. Só que eu estava tão despreparada que foi só nadar duas vezes os 50m livre que já fiquei morta de cansaço, e aí a minha dor, tanto nas costas quanto no ombro, foi aumentando muito durante a competição. No Pinheiros temos toda uma estrutura, médico, fisioterapeuta, estava tomando analgésico para conseguir competir, e eu estava nadando desse jeito. Para o Mundial ainda consegui treinar praticamente 100% - o meu 100%, já que não consigo fazer musculação e a parte de força é só dentro d’água, porque fora eu não consigo fazer.

Não faz nada fora d'água?
Não, nada, não consigo. Eu saio me machucando inteira. No Finkel (em setembro) eu não consegui nadar de tanta dor na coluna, eu estava com muita dor na coluna.

Essa dor na coluna também é devido a toda essa "estrutura"?
Em partes. Eu nasci com uma má formação numa vértebra, a L5. Não tenho mais um ligamento, que rompeu, e a minha L4 com a L5 ficam em choque quando começo a nadar borboleta. Então a minha L4 não calcifica mais, como se fosse uma osteoporose mesmo. Mas eu tenho essa mobilidade a mais na coluna que faz com que exista esse choque devido a essa minha frouxidão. Uma pessoa normal nunca conseguiria fazer com que essas vértebras ficassem em choque nadando. Apesar disso me ajudar muito para nadar, também "me ajuda" muito para me lesionar. Agora que operei meu ombro e vou ter que ficar um tempinho sem poder nadar, vou voltar agora segunda-feira a fazer fisioterapia. Aí acho que vou esperar mais uma semana e vou voltar a bater perna. Só que nem com prancha vou poder, porque eu não consigo levantar meu braço pra segurar a prancha. Vou deixar o braço ao longo do corpo e vou voltar treinando assim. Vou aproveitar para fazer uma fisioterapia geral - na verdade vou ter que fazer fortalecimento de todas as minhas juntas, joelho, cotovelo, para que eu não tenha mais esse tipo de lesão. Vou aproveitar que a carga de treino vai ser bem menor e dar uma intensificada nisso, porque vem me atrapalhando desde sempre. Quanto mais forte meu treino dentro d'água, menos coisas eu consigo fazer fora d'água. A gente vai entrar agora com um trabalho leve de fortalecimento para depois avançar para musculação. Estou bem tranquila. Fui no médico terça-feira agora, ele falou que a mobilidade está melhor do que ele imaginava, e estou bem confiante. Ele falou também que agora vai diminuir muito a minha dor, que eu não vou ter que mais ficar me preocupando com o ombro.

Mas você sente dor no ombro direito também?
Muito raro. Às vezes tenho umas tendinites, mas nada demais. Uma coisa que em uma ou duas semanas fica bom.


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"Eu sempre olhava o Pinheiros
assim meio de longe. Estava
no Minas, mas já querendo
ir para o Pinheiros"


Uma coisa que já ouvi falar é que você não treina muito borboleta. É verdade isso?
É (risos). O problema do borboleta é que é um nado muito técnico. Acho até que as pessoas que acompanham a natação, que me viram no Campeonato Mundial e nas Olimpíadas, me comparando com as outras meninas da final, vêem que eu sou dez vezes menor do que todo mundo, e realmente eu não sou uma atleta que tem muita força, principalmente no braço. Sou uma atleta que tem muita força na perna, e sou muito técnica mesmo. Se eu ficar treinando muito borboleta, em primeiro lugar meu corpo não aguenta, pelo que eu já falei, eu me lesiono muito fácil. Minha coluna arrebenta, meu ombro fica doendo muito. Mas mesmo que não fosse por esses problemas, qualquer nadador de borboleta não treina muito borboleta comparado com crawl. A gente sempre treina mais crawl do que borboleta, que só é bom fazer com intensidade um pouco mais alta e com menos metragem, porque você perde técnica muito fácil, é um nado que cansa bastante. Não existe um trabalho de nadar borboleta devagar. Cansa de qualquer jeito! Às vezes até no solto eu gosto de fazer uns 25m de borboleta, mas é o máximo que dá para fazer devagar. Se ficar fazendo muito, mesmo se fizer num ritmo fraco, cansa muito mais do que ficar mantendo de crawl. E eu ainda tenho um pouquinho desse agravante das minhas lesões, então acabo treinando um pouco menos.

Antigamente ouvia-se muito dizer de nadadores que faziam séries como 10x400m borboleta...
Acho que hoje em dia esse tipo de treinamento tem diminuído bastante. Acho que as coisas estão evoluindo. Essa coisa de que muito treino é melhor, a gente sabe que não é mais verdade no mundo da natação, principalmente para os velocistas. Para os fundistas eu nem sei. Obviamente eles têm que treinar muito mais do que a gente mesmo, mas para quem nada provas de 50m e 100m a metragem é mais baixa, com muita intensidade, muita qualidade de treinamento e menos quantidade de treino, de metragem.

Voltando um pouco no tempo, você treinou dois anos no Flamengo, 2003 e 2004.
Isso.

Naquela época você acabou fazendo 1:02 nos 100m borboleta quando era juvenil. Você tinha 1:06 em 2003, e em 2004 fez 1:02, que foi um dos melhores tempos do país!
O que aconteceu na verdade foi que em 2003 eu quebrei a clavícula e fiquei seis meses sem nadar. Foi um ano em que não consegui melhorar meu tempo. Eu tinha 1:06 e no 1:06 permaneci. No ano seguinte, em 2004, cheguei a nadar alguma competição para 1:04. E nesse Brasileiro, em Recife, eu estava me sentindo muito bem, muito confiante, e já queria nadar para 1:02. E essa foi a primeira vez que eu chorei depois de nadar. O meu pai apareceu de surpresa na competição! Quando vi que tinha feito 1:02, que tinha me classificado para o Sul-Americano (juvenil) do ano seguinte, e saí da prova e eu vi que meu pai estava lá, abracei ele, chorei pra caramba! Fiquei muito contente, e foi aquilo que me deu o passaporte para sair de casa. Foi quando eu fui para o Minas no ano seguinte. Foi nessa competição que eu conversei com o pessoal do Minas. Na verdade eu estava entre o Minas e o Pinheiros, mas o Pinheiros demorou um pouco para me dar a resposta. Quando eu já estava morando em BH o Pinheiros me ligou. E aí fui pra BH e naquele Sul-Americano (no início de 2005) acabei fazendo 1:01 pela primeira vez e aí fiquei mais perto do recorde da Gabrielle Rose de 10 anos.


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Em 2005, na época de Minas Tênis Clube


Em 2004, obviamente seu trabalho estava dando certo no Flamengo. Por que a decisão de sair?
Eu tinha 15 anos quando decidir ir. Fui conversar com meu pai e com minha mãe. Minha mãe ficou totalmente desesperada! Acho que ela não estava esperando, e obviamente depois me deu a maior força. Mas meu pai já de cara me deu uma super força, sempre me apoiou desde pequenininha, ia em todas as competições... E querendo ou não, acho que todo mundo sabe que no Rio de Janeiro, onde a maioria dos clubes está ligada ao futebol, é muito difícil fazer um esporte "amador" num clube de futebol. A gente não tem nenhuma estrutura. Não tem nutricionista, a fisioterapia é totalmente lotada, tem que dividir com um milhão de pessoas, os próprios técnicos com salário atrasado, eles já não tinham mais aquela motivação. Todos os técnicos pelos quais passei no Rio de Janeiro, todos, sem exceção, para mim eram como pais e mães, técnicos que eu tenho muito carinho até hoje. Quando volto no Flamengo, quando volto no Fluminense, sou recebida com um carinho enorme. Não sai do Fluminense para ir pro Flamengo brigada com ninguém, pelo contrário. Não saí do Flamengo para sair de casa brigada com ninguém, também muito pelo contrario. Mas chegou um ponto em que eu falei "cara, se eu resolver sair de casa só mais tarde, acho que os resultados maiores vão vir mais tarde". E eu estava precisando mesmo de uma guinada, de uma mudança de ares, de uma mudança de treinamento, e estava querendo mesmo investir na natação, na infraestrutura. Saí de casa ganhando quase nada, o Minas me pagava quase nada. Como te falei, eu era muito novinha. Ganhava uma ajuda de custo, me davam república e educação. Fiz 16 anos em dezembro e em janeiro me mudei para lá. Acho que foi ótimo, apesar de ter sido um ano difícil.

2005?
Foi, foi um ano muito complicado. Eu nadei bem uma competição, aí nadei mais ou menos o Troféu Brasil.

Que foi sua primeira vitória em Troféu.
Foi, mas nadei pra 1:02.0, não fiquei muito contente, e peguei uma prata nos 200m borboleta e um bronze nos 50m. Fiquei muito feliz com minhas medalhas, lógico, mas depois disso só fui piorando, piorando, piorando, e aí resolvi ir para o Pinheiros, que era uma equipe que quando eu olhava eu tinha muita vontade de estar lá. Eu sempre olhava o Pinheiros assim meio de longe, eu estava no Minas mas já querendo ir para o Pinheiros mesmo.


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Em 2005, nadando para sua primeira vitória no Troféu Brasil


Hoje em dia você não nada os 200m borboleta mais, mas na época você nadava. No Brasileiro Junior de 2005, em Vitória, você nadou os 200m borboleta e passou mal, desmaiou depois da prova. Tem alguma relação com seu abandono da prova?
Eu já passei algumas vezes mal nos 200m borboleta. Realmente, eu detesto essa prova! Converso com meu técnico e falo "nunca mais quero nadar 200m borboleta, não gosto!" E para mim natação é totalmente ligada ao prazer que eu tenho. Eu amo nadar! Então se eu vou pra uma prova que eu não gosto, não tem como eu me sair bem. E é uma dor horrível, eu vou mal-humorada pra prova, não gosto mesmo! E todos os técnicos que eu tive falavam que eu não só tenho um estilo mas também uma estrutura física de nadadora de 200m, porque sou pequena, sou leve, tenho a frequência de braçada super baixa, uma amplitude muito grande... então o meu nado é de nadadora de 200m, mas não me põe para nadar 200m que não dá certo! (risos)

Agora em relação à outra prova que você nada, os 50m borboleta. Você faz os 50m livre nadando borboleta. Chegou até a ganhar medalha no Finkel, acho que no Brasil ninguém nunca fez isso. Você nada porque você é mais rápida que o crawl mesmo ou você nada porque quer ter mais uma oportunidade de nadar borboleta?
Porque eu sou muito mais rápida que no crawl! (risos) Sou bem mais rápida! Uma vez tentei nadar 50m livre, foi horrível! Fiz 27.3, sou um desastre nadando crawl, um desastre! Eu nado borboleta realmente porque sou mais rápida. Às vezes eu brinco com meu técnico que vou de crawl e ele fala "Gabi, você tem que pegar final, Gabi. Não vai de crawl!". Não dá, não dá!

Quando você nada borboleta no crawl, você nada o estilo como se tivesse nadando uma prova de borboleta? Afinal, você pode chegar com uma mão, se achar que pode chegar mais rápido...
Nado exatamente igual. Não sei se pode chegar com uma mão. Acho que nem os técnicos sabem essa regra direito. Não sei se você pode descaracterizar o nado que você escolheu nadar, entendeu? Não sei se pode chegar com uma mão. Uma vez eu até nadei uma prova de 100m, nadei 50m borboleta e 50m crawl num Jogos Regionais. Um monte de gente veio me falar que eu deveria ter sido desclassificada. Nem eu sei se eu deveria ter sido. Mas já que eu estou nadando borboleta, eu nado exatamente do jeito que eu nado a prova de 50m borboleta. A única diferença é que as meninas do lado estão nadando crawl.

Quanto a isso, acho que não tem nenhum impedimento da regra. No início da década, um nadador chamado Rafael Thuin...
Que dava duas braçadas de borboleta e completava a prova no crawl né?

Isso, e não tinha nenhum problema. Nadava inclusive em Copa do Mundo e nunca foi desclassificado.
É. Mas prefiro fazer os 50m borboleta mesmo, já que me propus a nadar borboleta. É até uma base para ver como vou nadar os 50m borboleta, até como mais uma oportunidade de nadar. Nos 50m livre não vou fazer índice de nada mesmo! Então serve como um treino. No Maria Lenk por exemplo cheguei já com índice para o Mundial, então a gente pode ficar tentando algumas coisas diferentes. Essa preocupação a gente já não tem tanto como a que eu tive para fazer o índice pras Olimpíadas (no Troféu Maria Lenk de 2008). Eu não podia me cansar antes dos 100m borboleta, então não nadei os 50m livre para chegar nos 100m borboleta totalmente descansada. Agora que a gente está com um pouquinho mais de folga, pode colocar algumas provas diferentes para treinar.


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"Sou muito competitiva!
Independente do que treinei,
do que comi, se estou com dor...
Cara, se estou na competição, estou
lá sempre pensando em ganhar!"


Em 2006, você acabou batendo o recorde sul-americano da Gabrielle Rose de 100m borboleta. Esse era um objetivo seu fazia quanto tempo?
Desde a vez que eu fiz 1:01. Fiz 1:01.84 (no Sul-Americano juvenil, em março de 2005) e o recorde era 1:01.22. Já naquele ano de 2005 eu queria ter batido. Acabou demorando um pouco mais, e aí eu consegui nesse Campeonato (Troféu Brasil de 2006). Fiquei feliz porque sabia que poderia vir outra menina e bater. A Daynara (Daynara de Paula, atualmente no Minas Tênis Clube) quase bateu o recorde.

Inclusive você acabou perdendo pra ela na final.
É.

E você bateu na eliminatória. É, realmente...
E ela não bateu por dois centésimos (na eliminatória anterior) e depois eu bati por um décimo, foi super perto. E eu fiquei bem feliz. Um recorde de 10 anos! Acho que todo nadador gosta de quebrar essas barreiras. Que nem quando comecei a querer bater a barreira do minuto. A gente sempre tenta, essas barreiras são muito importantes pra gente.


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Com Daynara de Paula em 2006


Já que você falou nisso, no Troféu de 2006 você abaixou de 1:01, com 1:00.92. Você foi a primeira brasileira a baixar de 1:01, de 1:00, de 59, de 58 e de 57. Você sempre tem na cabeça essa barreiras?
Tenho muito, muito. Quando nadei a primeira vez pra 1:00 eu fiquei super feliz, "a primeira a nadar pra 1:00". Mas não é a mesma coisa de quebrar a barreira do minuto. É como por exemplo no dia que quebraram a barreira dos 50s nos 100m livre masculino. Todas essas barreiras redondas acabam ficando mais importantes. E aí eu coloquei na minha cabeça que eu queria de todas as formas. Eu sabia que tinham mais duas meninas que estavam próximas de mim. Aí no Sul-Americano do ano passado consegui nadar pela primeira vez pra 59.79. Nossa, fiquei muito feliz! Eu não estava esperando de jeito nenhum nadar desse jeito naquela competição. Eu estava com 49 kg, tenho 58 kg hoje em dia, estava treinando forte pra caramba visando o Maria Lenk, porque a gente não queria fazer uma preparação para março e outra para maio. Então quando vi aquele 59 eu nem acreditei, eu ficava olhando pro placar... Aí no Maria Lenk eu fiz 58. O meu técnico achou que eu nem tinha feito o índice pras Olimpíadas porque ele falou que estava olhando só os centésimos. Falou, "Gabi, não achei que você fosse nadar pra 58. De onde é que você tirou esse 58?"

58.90, e ele pensou que fosse 59.90?
É. Ele falou assim, "pensei que fosse 59.90, fiquei todo chateado, mas dali a pouco vi que tava todo mundo gritando, eu não entendi nada!" Aí um outro técnico do Pinheiros, o Marcão (Marco Veiga), falou "foi 58!", aí ele começou a comemorar também. Depois disso foi o 58.00 (feito na Olimpíada) que me deixava agoniada! Eu falava "gente, 58.00 não! Preciso nadar pra 57!" E aí acabou acontecendo no Mundial (deste ano, em Roma), 57 (na semifinal) e depois o 56. Na verdade eu tinha ido para o Mundial já pensando no 56 mesmo. Estava pensando em nadar a eliminatória pra uns 57.8, só que sem nadar 100%, mas com o fato de eu ter ficado doente meus planos ficaram um pouco diferentes do que eu estava planejando.

Depois a gente volta a falar desse Mundial. Queria que você falasse do Pan de 2007. Você acabou chegando na final, a Daiene (Daiene Dias, da AERT/ES) tinha batido seu recorde sul-americano, mas você deu declarações que estava se poupando nas eliminatórias e na semifinal, e na final acabou ficando nervosa, acabou nadando um pouco fora da estratégia.
Foi totalmente fora da minha estratégia. Na verdade a Daiene já chegou no Pan como recordista. Ela tinha batido em maio o meu recorde (no Troféu Maria Lenk), que era de 1:00.92. Ela tinha feito 1:00.63. E no Pan ela melhorou ainda mais esse recorde, nadou pra 1:00.48 (na semifinal). Mas eu sabia que no Pan-Americano não é preciso nadar a eliminatória e a semi a 100%. Tinha combinado com meu técnico que eu iria nadar um pouco mais tranquila, porque sabia que a medalha de bronze estava entra as duas brasileiras. E normalmente a minha forma de dividir prova é a seguinte: eu passo muito forte e volto com o que tem, com o que sobrou de mim. Obviamente eu já tentei passar mais dosado para ver se ia voltar melhor, mas não adianta. Independente do tempo que eu passe, a volta cansa. A gente viu que com o passar do tempo, quando eu perdi o medo de passar forte, o meu tempo começou a melhorar muito. E na final eu passei em quinto, estava muito nervosa! Muito, meu braço tremia, minha perna tremia, meu tempo de reação foi horrível! Virei os 50m e vi que estava atrás. Eu não tenho memória dos meus primeiros 50m de prova nesse Pan-Americano! Aí me deu uma luz. Quando eu virei, falei: "caraca, eu preciso fazer força!" E aí fiz uma volta de prova muito, muito forte, e graças a Deus deu pra pegar a medalha de bronze, que com certeza foi um dos momentos mais emocionantes da minha carreira.

Deu para perceber, seu choro no pódio, e até imagino, sua primeira grande competição internacional, ainda no Rio, sua cidade, sua família lá, imagino que foi até então o momento mais marcante de sua carreira.
Até então, com certeza.


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Emoção no pódio do Pan-Americano, em 2007


Quando você saiu do Pan, já pensava no índice olímpico, que era 59.35?
Olha... já. Estávamos no ano anterior das Olimpíadas, e falei "tenho que melhorar 1s20". Eu sabia que dava! Estava longe, 1s20 pra natação é uma eternidade. Às vezes a gente passa 2, 3 anos tentando melhorar isso. Mas eu sabia que tinha muita coisa para melhorar. 2007 foi um ano que eu não treinei bem. As outras temporadas foram muito boas, mas em 2007, no treino, em qualquer série, independente da intensidade, eu não estava conseguindo manter os meus tempos. Não é que eu treinei mal porque eu não estava querendo. Eu não conseguia fazer o que eu podia. E estava com esse negócio, "cara, treinei muito mal esse ano, como será que vai ser ano que vem?" Aí eu comecei 2008 treinando pra caramba de novo. E acho que voltou uma certa confiança. E em março fiz esse 59.79 desse jeito que te falei, tava tudo errado naquela competição e eu consegui nadar assim... Eu sou muito competitiva! Sou uma pessoa que independente do que eu treinei, do que eu comi, do quanto eu estou pesando, se eu malhei, se eu não malhei, se estou com dor, se não estou com dor... cara, se estou na competição, estou lá sempre pensando em ganhar. Isso é uma coisa que as pessoas sempre podem esperar de mim, é que eu vou dar meu melhor naquela situação. Às vezes o meu melhor não vai ser o suficiente, às vezes o meu melhor não vai ser o meu melhor, mas eu sempre vou para fazer isso. Então quando eu fiz 59.79 meu técnico comentou comigo, "você achava que ia conseguir fazer o índice antes desse 59?", aí eu falei pra ele "achava". Ele falou, "quando você fez 1:00, eu sabia que você tinha potencial. Mas caso você não fizesse o índice para a Olimpíada, não seria uma coisa do tipo 'nossa, não acredito que ela não fez, ela estava tão perto'. Eu não teria ficado decepcionado, nem nada". Mas o quanto eu melhorei naquele ano, o quanto me dediquei... eu queria muito! Acho que nunca me propus tanto a fazer alguma coisa quanto naquele ano para as Olimpíadas. Passei por cima de qualquer coisa! Eu treinei como acho que eu nunca treinei. Para as Olimpíadas eu malhei, fiz tudo certinho, me alimentei certinho, não comia fast food, fui na nutricionista, tomei suplemento, coisa que eu nunca tinha tomado.

Você fez uma promessa de não comer fast food não foi?
Não não, não foi promessa não, foi o médico que falou "você não pode comer fast food, chocolate só no fim de semana”... sou totalmente viciada em chocolate, acho que foi a parte mais difícil. Realmente, eu estava longe de conseguir, mas nenhuma hora eu imaginei que não conseguiria. E eu acho que foi isso que me deixou... as duas competições que eu fiquei mais nervosa da minha vida foram o Pan-Americano e essa Seletiva para as Olimpíadas. E eu acho que fiquei muito nervosa por causa daquele excesso de confiança. Eu tinha certeza que ia conseguir! Certeza! Quando subi naquele bloco, sabia que ia conseguir o índice. E quando eu consegui, ao mesmo tempo que eu sabia, eu não conseguia acreditar! Foi aquela emoção toda de novo, foi na piscina do Pan-Americano, a minha família também estava lá... e eu acho que tinha 8 anos quando eu falei para o meu pai que eu queria ir para as Olimpíadas. É o sonho de qualquer atleta, o sonho de uma vida inteira.


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Mais emoção na conquista do índice olímpico, em 2008


No Maria Lenk, a Daynara tinha conseguido o índice em uma série anterior. Olhando pra trás, hoje, já tendo disputado uma Olimpíada e um Mundial, aquele foi seu momento de maior tensão?
Por causa do índice dela?

Não, digo por você já estar nessa expectativa e ainda uma outra menina fazer o índice logo antes de você nadar.
O índice da Daynara na verdade foi um fator que me ajudou. Na última seletiva pro Pan-Americano, na série anterior à minha, a Daiene bateu meu recorde sul-americano. Isso me desestabilizou psicologicamente, totalmente, totalmente. E eu fui nadar super chateada por terem batido meu recorde, saí da prova chorando. Aí a Flávia Delaroli falou pra mim, "Gabi, recorde sul-americano é só um nome que vai estar no papel. Você tem que ir lá e pensar em ganhar essa medalha no Pan". E por toda essa experiência que eu já tinha passado, eu pensei, "cara, eu tenho que estar pronta pra Daynara fazer esse índice". Eu vi como ela tinha nadado os 50m livre. Ela nadou muito bem os 50m livre, ficou super perto do índice. Na minha cabeça, a Daynara ia fazer o índice nos 100m borboleta. E ela tinha falado pra um monte de gente que ela ia nadar pra 58 e tudo, então eu já estava pronta para aquilo ali. E quando ela fez o índice, eu olhei e falei "então vão duas". Em nenhum momento eu pensei "e agora? E se só ela for e eu não for", não passou pela minha cabeça, não passou. E com certeza foi a hora que eu fiquei mais nervosa na minha carreira. Cara, não foi de um momento não, foram de semanas, quase um mês. Foi horrível, horrível! Nunca mais quero sentir aquilo ali. Começava a passar coisa na televisão antes do Maria Lenk do tipo "faltam 100 dias pra Pequim", eu chorava! Cheguei a vomitar de tanto nervoso! Foi a pior coisa que já aconteceu! E foi o que também me deu muita cabeça para nadar as Olimpíadas. Acho que todas as coisas que vão acontecendo de ruim, erros que a gente vai cometendo, a gente vai aprendendo para o próximo passo. Hoje em dia eu controlo muito bem o meu nervosismo, mas muito bem! Eu consigo chegar nas provas com a adrenalina necessária pra eu nadar e sem o nervosismo gerando peso em cima de mim.


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"(A seletiva olímpica) foi a hora
que eu fiquei mais nervosa na minha
carreira. Cara, não foi de um momento
não, foram semanas, quase
um mês. Foi horrível!"


Você fez 58.90, foi pra Olimpíada com esse tempo, e nesse período entre o Maria Lenk e a Olimpíada qual foi o objetivo que você estabeleceu?
A final. Mas eu não falei nem para o meu técnico. Na Olimpíada, a diferença do 8º pro 20º não é uma diferença tão absurda quanto num Campeonato Brasileiro. Eu cheguei lá com o 24º tempo. Só que eu melhorei quase um segundo. Eu sei que quase ninguém estava esperando isso. Mas por eu ter ficado excessivamente nervosa e por ter cometido uma série de erros no Maria Lenk, como meu tempo de reação ter sido 0.90s e ter passado muito forte, e até por eu ter treinado ainda melhor do Maria Lenk para as Olimpíadas, eu fui pra lá pensando em nadar já pra 57. E eu sabia que se nadasse pra 57 estaria na final. E quando eu consegui aquela final, nossa, ver todo mundo, sabe, vindo falar comigo, os meus amigos, o meu técnico, a felicidade de todo mundo, poxa... eu sou muito nova ainda, tenho 20 anos, tinha 19 nas Olimpíadas, foi uma emoção grande que eu não pude nem sentir na verdade, não consegui. Não podia me deixar me levar pela emoção do momento porque eu ainda tinha que nadar a final. Hoje em dia quando assisto a minha prova sinto muito mais emoção do que eu realmente senti na própria Olimpíada. Eu estava muito fria e calculista, eu acho. E agora é uma forma que eu sempre vou pras minhas competições, fria e calculista, mas como eu te falei, com aquela dose de um pouco de ansiedade e de bastante adrenalina, porque eu preciso de adrenalina pra nadar né? Se entrar calmo, já era, não precisa nem subir no bloco, volta pra casa.


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Monique Ferreira, Tatiana Lemos, Michelle Lenhardt e Gabriella Silva descontraídas em Pequim


Eu sinto tanta adrenalina que acho que é até por isso que eu gosto de me bater antes de nadar, dou uma liberada nessa adrenalina que eu estou sentindo, dou uma, não sei, é quase como se eu incorporasse... a Gabriella nadadora é totalmente diferente da Gabriella pessoa. Não consigo me colocar limites. Quando fui para a final olímpica eu levei meu uniforme de pódio dentro da mochila. Você nunca sabe o que vai acontecer. E eu sou muito assim. Posso não ser a favorita, posso não estar com o melhor tempo... sempre, do Maria Lenk até as Olimpíadas, toda matéria que eu lia minha era assim: "Gabriella Silva tem chances de ir pra semifinal". Não vi nenhuma matéria falando que eu tinha chance de pegar final. Até o meu técnico, minhas amigas estavam esperando essa semifinal. Eu não estaria satisfeita com a semifinal. Estava muito querendo a final! E entrei na raia oito! E foi, nossa, foi muito bom. Até tinha falado para o meu técnico. Sempre quando eu pensava que ia para as Olimpíadas um dia, eu já pensava em nadar final. Acho que brasileiro na natação mudou um pouco a mentalidade de participar. E com isso eu acho que a gente está crescendo muito, muito na natação. Acho que hoje em dia o Brasil já tem um pouco de nome. Não é o César Cielo, a gente pegou muita final nesse último Mundial, então quando eu fui para as Olimpíadas eu saí de lá satisfeita com meu resultado, satisfeita com o que eu tinha feito. Eu sinto orgulho de dizer que eu fui para as Olimpíadas não só pelo fato de eu ter ido, mas pelo fato de eu ter conseguido o que eu me propus a fazer. Eu não participei das Olimpíadas, sabe? Falar que eu participei das Olimpíadas para mim teria sido muito frustrante. Hoje em dia pensar que eu consegui o que eu queria me deixa totalmente satisfeita e com muito orgulho de falar nesses Jogos.


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"Não consigo me colocar limites.
Quando fui para a final olímpica,
levei meu uniforme de pódio
dentro da mochila"


Você nunca tinha nadado um Mundial, quanto menos uma Olimpíada. Aí de repente você estava com as outras sete melhores do mundo. Antes de entrar para a prova você se sentiu de algum modo deslumbrada?
Nem um pouco. Na verdade eu fiquei deslumbrada na hora que eu entrei na Vila Olímpica, na hora que eu vi o Michael Phelps pela primeira vez. A gente chegou acho que com cinco dias de antecedência da minha prova, então quando eu vi algumas pessoas super famosas, não só da natação como de todos os esportes, os astros da NBA, o (Rafael) Nadal (tenista), isso me deixou um pouco deslumbrada. Mas estar competindo com outras pessoas, não. Quando você está lá naquela final, você está com a mesma chance que as outras sete. Você está ali, nadando na mesma piscina, só não está nadando na mesma raia! Mas é a mesma competição, é a mesma piscina, é na mesma época, é o mesmo tudo. Você tem a mesma oportunidade que todo mundo. E a partir do momento que você fica se deslumbrando com os adversários, você já está se colocando pior do que eles. Eu nunca vou me colocar pior do que minhas adversárias. Elas podem ser melhor do que eu hoje. E eu posso subir no bloco sabendo que elas são melhores do que eu hoje. Isso antes de cair na água. Porque depois, eu posso ser melhor do que elas. E eu acho que é um pensamento que eu sempre tento carregar, de nunca, nunca, nunca me colocar pior do que ninguém. Ficar com medo... Pô, a Lisbeth Trickett, que foi que ganhou, acho que minha coxa é do tamanho do braço dela. Ela é enorme de forte. Muita gente falava "nossa, ela é muito grande" e não sei o quê. Gente, se eu ficar me deslumbrando, me preocupando com minhas outras adversárias... eu tenho que me preocupar comigo, com minha prova, com meus... de não errar, de fazer tudo certo. Se eu me preocupar se a outra vai nadar bem, se a outra é melhor, se a outra... Cara, a natação é um esporte individual, depende só de me mim, não dependo das outras. Então não, em nenhuma hora eu acho que eu cheguei a desvirtuar o pensamento por causa das outras meninas.

Alguns dias depois o Cesão ganhou os 50m livre. Como aquela medalha de ouro te influenciou no sentido de pensar "da próxima vez eu quero estar lá"?
Acho que influenciou todos os brasileiros. Todo mundo viu que um brasileiro pode ser o melhor do mundo. Não tem mais essa coisa de "a gente pode ganhar uma medalha", sabe? Brasileiro tem essa coisa de achar que é inferior aos outros! Eu acho que o Cesão veio para mostrar que o brasileiro pode ser o melhor. E com certeza ele inspirou muita gente. A gente treinou com o Cesão lá no Pinheiros, e ele não é um bicho de sete cabeças, não treina mais do que a gente, ele não faz... entendeu? Ele é um ser humano como todo mundo, não é um ser intocável, tem os defeitos e as qualidades dele, é uma pessoa normal, um amigo da gente... Então ver uma pessoa tão próxima ali naquele pódio com certeza foi muito emocionante. Eu não conseguia parar de chorar quando vi ele ali no pódio, quando começou a tocar o hino do Brasil... no Mundial acho que foi mais emocionante ainda, porque eles colocaram a primeira parte inteira. Com certeza ele é uma inspiração para muita gente, e foi para mim. Antes disso eu já pensava em ganhar, mas acho que ele fez com que eu acreditasse ainda mais que é possível. Ele fez com que parecesse que é mais plausível, que é mais próximo do que a gente imagina. Acho que ele sempre vai ser uma inspiração pra muita gente para as próximas não sei quantas gerações. Ele influenciou o Felipe França, ele sempre fala isso, fez com que ele acreditasse que pudesse bater o recorde mundial. Posso dizer que ele influenciou todo mundo, acho que todos os brasileiros se inspiram no Cesão.


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Nadando a final olímpica dos 100m borboleta


Depois da Olimpíada, no final de 2008, você recebeu um convite pra treinar na Austrália não foi?
Na verdade eu quis ir pra Austrália.

Ah você quis?
Eu entrei em contato com alguns clubes e comecei a receber propostas de outros. Só que eu queria um específico, que é o da Lisbeth Trickett e do (Eamon) Sullivan. No final, algumas coisas pesaram para eu ficar por aqui. A principal delas foi meu técnico. A natação é um esporte muito detalhista. Não é igual futebol. Se você é muito habilidoso, se você é muito bom jogador e você se dedica àquele treinamento, você vai ser dar bem no futebol. Na natação, na ginástica olímpica, não é bem assim. O técnico influencia demais no resultado, porque o treino muda muito. Eu estava com muito medo, porque eu tenho uma admiração e uma confiança no Albertinho que eu não tenho em técnico nenhum no mundo inteiro! Sair do Pinheiros seria muito complicado por causa dele. E além disso tem a situação das minhas lesões. Chegar num outro país e muito provavelmente não conseguir cumprir a temporada inteira, não sei como ia ser o entendimento deles lá. Eu já ia chegar lá com problema sabe? E o problema nas minhas costas não tem solução! A gente consegue com fisioterapia diminuir a minha dor, mas não tem solução, tem treino que eu tenho que sair! Não sei se teria esse entendimento, essa liberdade de falar dos meus problemas, de acharem que eu estaria querendo matar treino, de dar uma de "esperta", o que na verdade seria muita burrice né? Então achei melhor ficar aqui. E acabou tendo depois um problema lá, acho que eles têm alguma coisa ligada com o governo, então para ter atleta estrangeiro nadando pelo clube acho que não pode. Eu teria que treinar com um outro técnico e três vezes por semana treinar com o técnico principal. Cara, não dá. Fazer três vezes por semana planejamento com um, três vezes por semana planejamento com outro no ano do Mundial ia virar uma zona, entendeu? E ai eu acabei desistindo, e acho que foi a melhor decisão que eu já tomei.

Eu não imaginava que depois dos resultados de 2008 você ia ter a iniciativa de procurar algo fora do Brasil, a não ser que aparecesse um convite. Você pretende um dia treinar fora do Brasil?
Olha, eu penso em morar no exterior. Não sei se enquanto estiver nadando, mas tenho muita vontade de morar fora do Brasil, de conhecer outras culturas. E a Austrália é um sonho desde quando eu era bem pirralha. Acho que na 5ª série eu já falava com uma menina da escola que um dia eu iria morar na Austrália. Mas não sei nem se vai ser durante minha carreira, é muito difícil dizer... Eu tenho 20 anos e espero nadar até uns 30, então não sei o que vai acontecer. Não sei se de repente meu tempo vai estagnar, ou se eu vou melhorar muito e não vou cogitar a possibilidade de sair do Brasil, ou se eu vou melhorar muito mas depois vou ter um período de... não sei o que vai acontecer com minha carreira ao longo desses anos. Para o ano que vem, não penso em sair do Brasil de jeito nenhum. Para o próximo ciclo olímpico, na verdade, não existe a possibilidade. A menos que aconteça uma catástrofe, uma coisa totalmente fora do normal, eu não penso mesmo. Estou com meu técnico, o Albertinho, sou fã incondicional dele, e eu atribuo os meus resultados nos últimos quatro anos diretamente a ele. Um pouquinho a mim também (risos), mas bastante culpa desses resultados é dele. Não só dele. Não conheço igual aos três técnicos do Pinheiros! Talvez o Vanzella (Fernando Vanzella), do Minas, que quando eu entrei no Minas ele ainda era do Pinheiros. O Ari (Arilson Soares) e o Marco Veiga, que entrou no lugar do Vanzella, são de um nível de profissionalismo que a gente não conhece na natação. Os caras são muito bons. O Ari é um cara que vive para os seus atletas! A vida dele é aquilo ali. Quando alguém tem um resultado, e não precisa nem ser atleta dele, se for uma pessoa que ele tem carinho, ele chora, se emociona, vibra. O Marcão é igual, é um pai, não tem como não se apaixonar por ele. E além dele ser um pai pode-se dizer que é um profissional perfeito. Ele consegue equilibrar esse lado paizão, ao mesmo tempo que consegue impor limites, ao mesmo tempo que é muito bom no que faz. O Albertinho é a mesma coisa. Quando tenho problema pessoal eu falo com ele, ele me conhece muito bem, então consigo me abrir. É um cara que me entende muito, a gente tem muita liberdade, a gente conversa sobre tudo. A gente passa horas, ele fala muito, eu falo muito (risos). Quando a gente senta pra conversar a gente fica horas, horas falando. E isso é muito importante, você se dar bem com seu técnico é muito bom. Então são três profissionais que eu tenho uma admiração enorme, enorme. O Pinheiros escolhe a dedo os técnicos, com certeza, e eu acho que esse é o diferencial do Pinheiros.


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"Sou fã incondicional do Albertinho.
Atribuo os meus resultados nos últimos
quatro anos diretamente a ele.
Um pouquinho a mim também (risos)"


Com seu tempo de borboleta nos 50m livre (25.75) no Maria Lenk deste ano, que lhe colocaria na 5ª posição do ranking mundial dos 50m borboleta até então, eu particularmente achava que você teria mais chances de pódio nos 50m do que nos 100m. Você também achava algo parecido?
Todo mundo achava. Até minha mãe veio me perguntar. Eu falei, "mãe, se você for ver meu tempo, hoje, tenho mais chances nos 50m do que nos 100m". Mas aí acho que cai de novo nessa coisa de gostar. Cara, o 100m borboleta para mim é um xodó! Para mim é a prova mais importante, e também o 50m não é prova olímpica, eu acho que isso acaba pesando inconscientemente... óbvio que o Campeonato Mundial é muito importante, mas... existem países que nem têm seletiva para as provas de 50m, o próprio Estados Unidos, quem nada os 50m estilos é quem nada na prova de 100m. Não é que eu ache que não é uma prova importante, mas eu acabo focando mais nos 100m até por até gostar mais, mas principalmente por ser uma prova olímpica. Eu posso até ganhar os 50m borboleta no Mundial, até porque nem foi uma prova forte, acho que foi uma das provas mais fracas. Os tempos da final foram muito aquém do que deveriam ser.

Nem saiu recorde mundial na final, só na semifinal.
Não saiu, na semifinal as meninas nadaram muito melhor do que na final. Eu não nadei bem, não consegui, saí descansada nas duas vezes que nadei, não encaixava, não senti a prova. Não posso nem te apontar um erro. Saí bem, acho que ondulei forte, mas meu nado simplesmente não foi. E eu até fui com mais garra do que costumo pela frustração dos 100m, mas mesmo assim acho que eu acabo focando nos 100m borboleta, que eu sei que é o que pode levar para o meu sonho, que é ganhar a medalha olímpica. O 50m não pode me levar.

A não ser que você nade os 50m livre de borboleta e chegue no pódio (risos).
(risos) Aí vai ser demais né?


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No Mundial de Roma, em 2009


Falando dos 100m, já é bem notório o que aconteceu com você, o seu problema estomacal, não conseguiu comer direito, descansar direito. Depois da semifinal, muita gente disse que você já era uma vencedora por ter superado as dificuldades e passado para a final. Pelo visto, para você não tinha parado por ali.
Não, não tinha. Uma coisa que muita gente fala é de pressão externa. Para mim isso nunca existiu. A pressão externa é tão, mas tão menor que a minha pressão interna que não tem como eu sentir essa pressão. Pressão de mídia, pressão de técnico, pressão de amigos, pressão de fã, eu nem sinto! Eu não fui para lá para ficar em 5º lugar, não fui para pegar final, fui para pegar medalha! E eu fiquei a oito centésimos da medalha! Acho que não tem como não ficar frustrada. Se eu tivesse feito uma prova em que eu tivesse falado "fiz tudo que deveria ter feito e fiquei a oito centésimos da medalha", eu teria ficado satisfeita. Pelo menos não teria ficado frustrada do jeito que eu fiquei. Mas eu não consigo, até hoje, olhar de novo a minha prova. Quando vejo a minha chegada eu choro todas as vezes. Eu assisti lá porque eu tenho que ver meu erro, eu não sou mais criança, não posso virar e falar "não quero assistir", eu tenho que assistir, tenho que ver meu erro, tenho que ver o que é que eu fiz, porque eu não só cheguei longe, como eu levantei a cabeça, levantei meu pé... eu tenho que assistir para corrigir nas próximas vezes, tem um biomecânico pra fazer essa filmagem exatamente para que a gente não fique cometendo esse tipo de erro. Assisti umas três vezes e fiquei péssima, chorei a noite inteira depois dessa prova... cara, não vou mentir, não tem um dia que eu não pense nessa chegada, sabe? E eu acho que eu vou pensar até o meu próximo Mundial. Não tem como, eu não consegui o que eu queria. Eu sou finalista. Eu sou uma quase-medalhista? Uma quase-medalhista é uma finalista. E isso pra mim é muito frustrante, porque eu sei que podia ter conseguido. Eu sei que eu estava doente, sei que eu estava com o ombro ferrado, tem um monte de coisa, mas não importa! Não importa! Eu sei que eu poderia ter conseguido essa medalha porque eu sei que foi um erro! Não foi que eu dei tudo, não foi que eu fiz a prova perfeita e não consegui.

Sua frustração é maior devido ao seu erro na chegada do que o fato de pensar "ah, se eu não tivesse ficado doente..."?
Eu nem penso se eu não tivesse ficado doente. Lógico, se eu não tivesse ficado doente... (risos) Meu técnico vive me falando isso. Eu não fui para nadar para 56.9. Eu achei que iria nadar para 56 bem mais baixo. Eu estava muito bem para esse Mundial, estava muito bem! Acho que se não tivesse ficado doente, mesmo errando a chegada, eu teria conseguido uma medalha, de repente até a de prata, não sei. Mas ter comido uma coisa que estava estragada é uma coisa que eu não posso controlar. O gosto não estava diferente, nada estava diferente. Eu jantei, passei mal de noite, passei mal de madrugada inteira, é uma coisa que... tem fatores externos. Se eu não posso controlar fatores externos, eu tenho que ter pelo menos controle sobre as coisas que eu tenho que controlar, que é o meu nado, são os fundamentos... a chegada é culpa minha! Ter ficado doente não foi culpa minha, não escolhi ter ficado doente. Não posso colocar a culpa em uma coisa que eu não posso controlar. Mas a chegada eu posso, e foi um erro ridículo. Foi um erro que eu não deveria ter cometido, e que como tudo a gente tem que tentar ver o lado bom das coisas, que é sentar e falar "cara, eu nunca mais vou errar uma chegada". Eu posso estar longe, no borboleta infelizmente tem isso, a gente... no crawl é mais fácil acertar a chegada do que no borboleta, então se eu estiver longe, da próxima vez eu vou enfiar minha cabeça dentro d'água, vou bater uma pernada e vou fazer força para conseguir chegar mais forte, não vou ficar dez segundos deslizando. Então estou tentando pensar por esse lado (risos).


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"Chorei a noite inteira depois da prova
(100m borboleta no Mundial de Roma).
Cara, não vou mentir, não tem um dia
que eu não pense na chegada dessa prova"


Você acha que talvez você tenha errado a chegada por que passou muito forte e tenha dado uma travada no final?
Todo mundo me fala isso, que eu cansei muito no final. Foi uma das provas em que eu menos senti cansada no final. Eu senti o cansaço natural da prova. Às vezes faltam 15 metros e a gente fala assim: "caraca! E agora? Caiu o piano!" Eu não senti isso nessa prova, eu não senti que caiu o piano, eu não senti que travei. Senti o cansaço natural. Só que comparando com as outras meninas elas fazem uma outra tática de prova. Então não foi isso que fez com que eu errasse. O que fez com que eu errasse foi o fato de eu ter... na semifinal eu cheguei quase com o nariz, porque estava um pouco longe, e aí ao invés de alongar eu cheguei com uma braçada curta. Chegou na final eu fiz o contrário, só que estava bem mais longe do que na semi! Mas eu achei que estava bem mais perto do que eu estava. Eu vi totalmente errado. Pra mim a minha braçada ia dar quase certo, eu sabia que eu tava um pouco longe. Mas eu não sabia que tinha tanta distância assim. Quando eu vi que não estava chegando, quando eu bati, eu sabia que tinha perdido a medalha. Eu não queria olhar pro placar. Quando eu olhei foi horrível. Mas também não foi tão ruim assim. Eu nadei para 56, eu fiz esse pedaço do meu objetivo, sei que foi o melhor resultado da natação feminina em Mundial, todas as pessoas que eu conheço ficaram muito felizes com meu resultado, eu recebi muito carinho dos meus fãs pelo meu site e tudo... mas é o que falei, é uma coisa que a gente sente. Fui eu que treinei, fui eu que passei por um monte de coisa e ter chegado lá e ter ficado com quase né? O quase incomoda muito, porque o quase faz alguma coisa? Não faz nada. Mas não é meu último Mundial, é meu primeiro. Ainda tenho muito tempo pela frente.

Vendo a sua prova, muita gente se lembrou do que aconteceu com o Cesão em 2007. Ele nadou na mesma raia um que você, passou em primeiro, estava entre os primeiros até os metros finais e na chegada ficou em 4º por quatro centésimos.
É verdade. Ficavam me chamando de Cavic toda hora, por causa das Olimpíadas lá do Phelps e depois ficavam falando do negócio do Cesão também. Bom, se eu depois tiver o futuro como o do Cesão eu não vou me importar muito com essa chegada não (risos).

Mas neste Mundial você obteve algumas marcas históricas. Você fez a 3º melhor parcial da história de revezamento, e seu tempo de 100m borboleta faz de você recordista americana junto com a americana Dana Vollmer!
No revezamento, eu já estava 100% recuperada da intoxicação alimentar, e realmente nadei muito melhor. Minha troca de revezamento não foi boa. A Carol Mussi, que nadou o peito, tanto na eliminatória quanto na final, errou muito a chegada. Então para não desclassificar eu tive que ficar esperando para fazer a minha saída, então eu saí 0.40. Numa prova individual eu saio 0.70. Normalmente no revezamento a gente sai 0.1, 0.2, então eu teria nadado pra 56.5, se tivesse que colocar na prova individual com saída parada. Mas (risos) infelizmente essas coisas acontecem de uma forma que elas estão pra acontecer. Eu sou espírita, acredito muito nisso, então acho que cada coisa acontece no seu momento. Não acho que esse é o fim de nada, não acho que esse é o fim do mundo... eu achava que era na hora que aconteceu. Acho que dei uma dimensão de repente maior do que ela teve. Foi um Campeonato Mundial e estou esperando chegar o próximo para tirar esse gostinho um pouco amargo que ficou. Mas aí acho que no próximo se vier uma medalha de ouro não vai ter mais gostinho nenhum (risos).


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Final dos 100m borboleta, contra a chinesa Liuyang Jiao, que lhe tirou a medalha de bronze


Falando nisso, 2010 é um ano sem Mundial de longa, só de curta. Qual será seu objetivo?
Na verdade, tudo vai depender muito de como for a evolução da minha cirurgia. Existe uma estimativa de quando vou voltar a nadar. São uns 3 ou 4 meses para conseguir rodar o braço, mas sem fazer força embaixo d'água, então é muito difícil de te dizer. Cada corpo reage de uma forma. Eu voltei para São Paulo na terça-feira dessa semana exatamente para ver como é que estava. O médico falou "seu ombro poderia estar super-inflamado e você mal estaria conseguindo mexer, eu iria ter que entrar com anti-inflamatório e fisioterapia já agora". Mas como minha mobilidade está boa para essa fase, eu vou começar na segunda-feira. Então ainda é difícil dizer meus objetivos para 2010 porque eu não sei como vou estar. Até recebi um e-mail sobre o Sul-Americano que vai ser em março, eu não sei ainda se vou estar apta a poder competir. Aí vai ter o Maria Lenk em maio, que vai ser seletiva pro Pan-Pacífico, que não é... não que seja importante em relação a resultado, mas é uma competição forte, é bom a gente estar competindo, e o Maria Lenk é seletiva. Não sei se vou estar ainda 100%. Às vezes na natação a gente demora para voltar, para entrar em forma. E a minha recuperação, apesar de eu estar no começo nadando perna, vai ser um pouco limitada por causa da minha coluna. Se eu não tivesse esse problema na coluna seria ótimo porque eu sou uma atleta que precisa até treinar mais perna que os outros, que a maioria pelo menos. Minha perna piorou nos últimos tempos porque eu estava treinando só tanto quanto todo mundo. Então agora que eu vou ficar esses meses treinando perna, vamos ver. Se de repente eu estiver bem pro Maria Lenk, aí vai ter o Pan-Pacífico, aí depois em setembro vai ter a seletiva pro Mundial de Curta e depois vai ter o próprio Mundial de Curta.

Depois da Olimpíada de 2008, muito devido ao ouro do Cesão, a natação atingiu um grau de popularidade no Brasil como nunca havia se visto. O sucesso chegou pra você? Você é reconhecida nas ruas?
Muito difícil. Aconteceu duas... três vezes, de virem falar comigo. Muito difícil. Às vezes alguma amiga minha vem me apresentar e dizer que fui para as Olimpiadas, e aí tem gente que fala "ah, você que é essa, nossa mas é muito diferente"... Natação é ruim para ser reconhecida. Quando o Cesão foi para o pódio ele estava sem touca e óculos. A gente de touca é óculos é totalmente diferente. Ainda mais mulher. Uma vez eu fui dar uma entrevista, o jornalista até falou "nossa, você tem cabelo! Não sabia se você era loira, morena, ruiva, cabelo curto, comprido!" As pessoas que me reconheceram são pessoas que acompanham muito de perto a natação. E apesar do Cesão, a natação não é um esporte popular no Brasil. Então se você perguntar por aí sobre o Felipe França, que foi medalhista no Mundial, tem muita gente que não conhece. Ele anda na rua e tem muita gente que não reconhece. Infelizmente é uma realidade do brasileiro. O pessoal sabe até quem está no banco do Flamengo...

Não precisa nem ser do Flamengo, até do Avaí!
(risos) Verdade, pior que é verdade. Sabem o nome dos 11 jogadores, sabem o nome dos reservas, sabem o nome do técnico, sabem o nome do massagista, mas não sabe o nome de quem está ali...

Entre os melhores do mundo!
É, entre os melhores do mundo! E o pessoal não sabe...


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"Eu quero ganhar uma medalha
no Mundial! Já tem brasileira que
foi pra final olímpica, então
eu quero uma medalha olímpica!"


Desde 1980 o Brasil conquistou medalhas em praticamente todas as Olimpíadas na natação, mas sempre no masculino. Em 2004 vimos uma evolução da natação feminina, com finais de Joanna, Flávia, revezamento 4x200m. Na última Olimpíada, você pegou final, e no último Mundial, você, a Daynara, a Fabíola e o revezamento medley. Sabe-se que uma geração puxa outra, o Ricardo Prado era ídolo do Gustavo Borges, o Gustavo Borges é o ídolo do César Cielo, e assim vai. Como você avalia que seus resultados podem fazer com que a natação brasileira feminina evolua?
Eu vou falar da minha mentalidade de quando eu era criança. Eu pensava: "se um dia eu fizer 59, vai ser muito bom". Eu não achava que um dia iria nadar mais rápido do que 59. Isso quando eu tinha uns 6, 7 anos. Porque eu não tinha uma nadadora que tivesse... tinha a Maria Lenk, que estava muito longe de mim, mas não tinha uma nadadora por perto que estivesse tendo resultados em Mundiais e tudo. E aí teve a Flávia e a Joanna, e a gente viu que era possível pegar uma final em uma Olimpíada. Então eu acho que as gerações posteriores à minha vão chegando com uma outra mentalidade, porque elas não vão querer fazer o que já foi feito. A gente nunca quer fazer o que já fizeram. Sempre quer fazer melhor! Bom, infelizmente os meninos que vierem depois do Cesão têm um desafio de fazer melhor do que ele, melhor do que ele não dá né? (risos) Campeão e recordista mundial! Eu quero ganhar uma medalha no Mundial! Já tem gente que foi pra final olímpica, então eu quero uma medalha olímpica! A gente vai colocando objetivos. E a garotada que está olhando agora vai vendo como isso é possível, como isso vai virando uma realidade no Brasil, então para eles eu acho que já não vai ser mais um bicho de sete cabeças do que foi pra gente. E que agora acho que não é mais para muita gente, pelo menos não é mais pra mim. Foi o que eu falei para muita gente, eu não fui pro Mundial nem pensando "ah, vou para a final", não, a final para mim já era uma realidade, e no Mundial o que eu queria era a medalha. Então eu acho que as próximas meninas vão chegar desse jeito. Elas não vão chegar "ah meu primeiro mundial, vou pra participar", entendeu? Não vai ter isso, acho que elas vão para o primeiro Mundial pra medalha! Então eu acho que está mudando a mentalidade do pessoal de dentro da natação, o pessoal que convive, deles terem referências, e eles quererem ser melhor do que as referências.


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Revezamento 4x100m medley finalista mundial: Fabíola Molina, Carolina Mussi, Gabriella Silva e Tatiana Lemos

Agora dois temas polêmicos. O primeiro em relação aos trajes. Antes do Maria Lenk vi uma reportagem que você dizia que o traje não era nem de perto uma das cinco principais coisas que influenciavam na performance. O austríaco Markus Rogan disse uma frase muito interessante sobre o assunto: "joguei meu traje na piscina. Ele ficou parado. Acho que vou ter que continuar treinando". Na sua opinião, quais são as vantagens e as desvantagens do fim dos trajes?
Eu assisti uma final de alguma prova das Olimpíadas de 2004, e eu via como as pessoas comemoravam recorde mundial e como é hoje. Hoje a pessoa que bate recorde mundial levanta um dedinho, dá um sorriso... foi banalizado! Totalmente banalizado! As pessoas estão sempre falando que foram os trajes. O bom é que eu acho que vai acabar isso. Vai voltar a ser o nadador. Nas Olimpíadas de Pequim não tinha Jaked vendendo. A seleção italiana tinha Jaked mas não tinha Jaked pra todo mundo. Isso é injusto. Mas a partir do momento que todo mundo tem traje, não tem como ser o traje. Agora, por outro lado, a flutuação que o traje dá ajuda mais algumas pessoas do que outras. Quem é mais pesado tem mais ajuda do que quem é mais leve. Quem nada peito tem mais ajuda do que quem não nada peito. Ajuda muito mais. O que é ruim é que tudo que acontece na natação é atribuído diretamente ao traje. As pessoas esquecem que existe uma pessoa dentro do traje! Que o traje, se você jogar na água, não vai nadar sozinho. Eu acho bem polêmico mesmo, acho muito difícil a gente falar porque teve uma Olimpíada e um Mundial com os trajes. Deveria ser proibido desde o começo. E já que liberaram, deviam ter deixado. Mas ao mesmo tempo, fico pensando se eu não sou prejudicada. Eu sou leve, as minhas adversárias são pesadas. Será que não ajuda mais elas do que eu? Ou será que não? Será que ajuda igual? Agora eu acho que vai acabar um pouco isso, sabe? A gente vai voltar para os trajes que eram antes... eu achei nada a ver, achei que deram uma exagerada nesse negócio de homem só poder usar bermuda e calça...

Nem calça.
Nem calça, só bermuda e sunga, e mulher só macaquinho e maiô. A gente já usa o macacão desde 2000. Acho que pra parar a polêmica eles até perderam um pouco a mão, mas... tem que voltar a se adequar do jeito que era. Não sei se os recordes mundiais vão demorar pra cair. Acho que alguns vão demorar até dois, três ciclos olímpicos para caírem, outros eu acho que vão cair mais rápido... é muito difícil a gente dizer isso, é muito difícil a gente saber exatamente o quanto os trajes ajudaram. Diferente do atletismo, a natação está muito longe ainda do limite do ser humano. A gente vê isso independente de traje, sempre foi assim. A gente tem uma melhora de segundos a cada quatro anos, a cada ciclo olímpico a gente vê uma diferença muito grande. Então acho que agora vai acabar um pouco esse negócio, vai voltar a ser quem está dentro dos maiôs... e vamos ver que tempo que a gente vai fazer agora. Não sei se vai estar bem pior, acho que tem que esperar pra ver mesmo. Pelo menos vai acabar isso, sabe? Eu acho que as pessoas estão esquecendo mesmo o quanto a gente está... cara, ninguém está treinando menos por causa dos trajes! Acho que a gente está treinando cada vez mais, cada vez com mais garra, com mais vontade... a natação está ficando muito competitiva, a diferença do primeiro pro terceiro lugar ela é mínima, a diferença do terceiro pro oitavo é mínima.

Se alguém treinar menos, o outro vai treinar mais.
Exatamente. Na natação a gente abre mão da nossa vida! É muito difícil você ver alguém que estuda, que trabalha... não é um esporte que te dá condição pra isso. A gente tem que treinar duas vezes por dia, a hora que a gente não está treinando tem que estar descansando, tem uma alimentação toda regrada, é muito complicado... ainda mais no Brasil. Nos Estados Unidos a gente ainda vê que tem toda uma estrutura em volta disso, mas no Brasil a gente acaba vivendo pra natação. Independente de traje ou não, a gente rala pra caramba, né? E rala mais ainda pra colocar esse traje! (risos)

Uma coisa boa certamente vai ser isso!
Nossa, ótima, não aguento mais vestir esses maiôs!

Jogos Olímpicos no Rio em 2016. Uma boa ideia?
(risos) Bem polêmico né? Não acho uma boa ideia. Não só por um monte de motivos que eu acho que são óbvios, como o faturamento do Pan-Americano, e como tudo no Brasil todo mundo fala até agora que não foi comprado um tijolo para a Copa do Mundo de 2014. Brasileiro, né? A gente ouve falar muito e fazer pouco. No Pan-Americano eu já não estava no Rio e falaram "você vai ter que voltar pro Rio de Janeiro porque a gente vai fazer um Centro de Treinamento pro Pan-Americano, o Rio está investindo muito, e vai ter metrô até a Barra, vai ter isso, vai ter aquilo", não teve nada! A Vila está completamente abandonada, as estruturas que foram construídas para o Pan-Americano viraram um bando de elefante branco espalhados pela cidade, o Maria Lenk é usado uma vez por ano, ano que vem nem isso! O Troféu Maria Lenk vai ser em Santos, o Troféu José Finkel vai ser numa piscina que vão construir que vai ser a piscina do Cesão lá em Santa Bárbara. O brasileiro não tem uma mentalidade para o pós-olímpico. Vai criar um monte de estrutura que brasileiro não vai saber nem aproveitar. Brasileiro só quer saber de futebol e um pouco de vôlei. Masculino. Eu acho que não vai ser bom. Brasileiro não é ligado a esporte, ele não... os chineses, cara, era uma movimentação na rua, uma coisa, tudo lotado... até hoje, o Cubo D'água é sempre utilizado. Eu já fiquei sabendo que no Brasil estão querendo fazer Cubo D'água, o que eu acho uma falta de criatividade absurda! Acho que podem fazer uma coisa muito mais com a cara do Rio de Janeiro sabe? Fora a roubalheira, fora um monte de assunto que existe no Brasil, corrupção, todo mundo sempre tentando se dar bem em cima de todo mundo... Eu adoraria que houvesse uma Olimpíada no Brasil se tivesse certeza que fosse funcionar, se eu tivesse certeza de que não ia ter roubalheira, que as estruturas seriam reaproveitadas, que o governo iria investir um pouco nas crianças carentes, utilizar as piscinas pra trazer mais gente pra natação, eu acharia ótimo. Natação não é um esporte de classe media, você tem que pagar para poder utilizar uma piscina de um clube, para ter aula de natação, se o governo estivesse incentivando esse tipo de coisa eu acharia ótimo. Só que infelizmente eu não acredito, eu sou muito cética em relação à política brasileira. Se eu soubesse que as estruturas iriam ter utilidade, se eu soubesse que iria funcionar, seria totalmente a favor! Foi ótimo ter a torcida brasileira no Pan-Americano, foi ótimo! Mas eu não acredito muito nisso não, então eu não gostaria. Se for, acontece né? Só espero que a gente não passe vergonha (risos).

País da natação?

Autor: dtakata

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Com a visibilidade alcançada pela natação no Brasil devido às conquistas de César Cielo, é natural que gente das mais diversas áreas dê seus pitacos. Como estamos em um país onde muitos dos ditos "jornalistas esportivos" falam de futebol 95% do tempo, onde o "maior diário esportivo do Brasil" dedica 90% de seu conteúdo ao futebol, gente que passa o ano inteiro falando de futebol aproveita esse momento para também falar um pouco sobre as conquistas do maior nadador brasileiro.

Na revista PLACAR deste mês, na qual Milton Neves tem uma coluna mensal, o jornalista escreveu um artigo intitulado "Um peixe chamado Cielo". Pode até ser considerado um belo texto, mas não consigo deixar de achar que é tudo só da boca pra fora, se aproveitando o calor do momento. Principalmente conhecendo outros textos do Milton em que ele resolve falar de outros esportes que não o futebol (evidentemente em tempos de Pan e Olimpíada). Em um trecho, ele diz que o Brasil é "um país ainda pobre e cego quanto a qualquer esporte que não seja o futebol de campo para homens". Como um dos jornalistas esportivos mais influentes do Brasil, bem que ele poderia fazer alguma coisa para mudar isso, como por exemplo não falar de natação só nos momentos oportunos!

Já o ex-jogador Neto, mais famoso pela sua história no Corinthians, escreveu um texto que causou muita polêmica em seu blog, em que chama Cielo de mascarado pelo fato do ex-nadador ter se negado a conceder uma entrevista para a Rádio Transamérica. Dias depois, ele escreveu outro texto, desta vez sobre Rubens Barrichello, em que volta ao assunto Cesão e cita até mesmo Thiago Pereira.

Abaixo reproduzo os textos de Milton Neves e Neto. O quanto será que essa publicidade é boa para a natação brasileira? Deixe seu comentário.


Um peixe chamado Cielo
(Milton Neves - Revista PLACAR nº 1334, setembro/2009)

Qual o principal número do esporte no Brasil? O 5 do penta do futebol? Os assustadores 17m89 do João do Pulo na Cidade do México? O 3 do tri de Guga em Roland Garros? O 3 dos Mundiais de Senna, Piquet e Éder Jofre? O 2 do ouro do vôlei masculino e de Adhemar Ferreira da Silva? Os incríveis 46s91 de César Cielo? O 4 de Maria Esther Bueno na grama sagrada de Wimbledon? O 7 de Garrincha? O 10 de Pelé?

Além dos 3 de Guga e de Éder, do 4 de "Estherzinha" e do 2 do vôlei e de Adhemar, fico mesmo é com os 17m89 do João do Pulo na Cidade do México-75 e com os 46s91 de César Cielo em Roma-2009. São feitos excepcionais, únicos e até inimagináveis para gênios e heróis de esportes solitários e em nada solidários quanto ao apoio que "recebem" do governo, da mídia e da publicidade.

Guga, Éder, Adhemar, Maria Esther, João do Pulo e esse peixe chamado Cielo assombraram o mundo... sozinhos! Nada de TV, publicidade, badalação, outros dez ou cinco atletas para ajudar ou um carro para empurrar. Eles venceram silenciosa e obstinadamente "só" com o apoio da família, do talendo fornecido por Deus, da garra e da sorte.

Sim, a mesma sorte que é o maravilhoso encontro da capacidade com a oportunidade. Oportunidade que tanto perdemos com os esquecidos ídolos de ontem e que agora não seja jogada fora. O que Cielo conseguiu em Roma é absurdo e monumental para um país ainda pobre e cego quanto a qualquer esporte que não seja o futebol de campo para homens. Que ele seja referenciado, homenageado e respeitado por todo o sempre e jamais esquecido. E que o governo se esqueça de tanta politicagem e dos "Zés" da vida que são verdadeiras sarnas que fazem coçar de raiva toda a sociedade brasileira.

E que construa ginásios, quadras, pistas de atletismo e piscinas para todo o povo verde-amarelo tão carente também quanto ao esporte. Mas essas piscinas desde já dispensam a água poluída do governo. O suor e as lágrimas de outros milhares de Cielos as encherão com obstinação, talento e dignidade.


Cielo, ídolo nacional. Fora a máscara!
(Blog do Neto, 08/09/2009 - http://blogdoneto.blog.uol.com.br)

Fico pensando como pode um cara estudado, de família constituída, que até outro dia não era ninguém virar mascarado do dia pra noite? Tem sido assim com o campeão olímpico da natação César Cielo. A produção da Rádio Transamérica tentou contato com ele através da assessora dele e essa moça disse, para minha surpresa, que ele não dá entrevista em programas de estúdio. Muito menos para rádios. Opção dele mesmo. Como pode? O cara se torna ídolo nacional e desdenha convites dessa forma? Sinceramente achei ridícula a atitude. O Cielo poderia ter arrumado uma desculpa melhor porque ele optou por participar das gravações do Roda Viva da TV Cultura e do Altas Horas da Globo, programas de estúdio como qualquer outro. Fazer diferença com a Transamérica é uma espécie de discriminação. Feio demais.

Sacanagem, né? Ele tem medalha olímpica. Já está na história do esporte. Mas como é estranho esse tipo de comportamento. Indigno de um ídolo nacional. Por mim o Cielo pode ficar morando nos Estados Unidos até ficar velhinho. É melhor mesmo. Nesse ritmo o ouro dele sempre vai ser latão perto das pratas de Gustavo Borges e Ricardo Prado ou perto do bronze do Xuxa. Todos humildes e atenciosos com todos. Sem discriminar.


Barrichello, um ídolo "esquecido"
(Blog do Neto, 11/09/2009 - http://blogdoneto.blog.uol.com.br/)

O povo brasileiro tem a incoerente mania de exaltar gente sem valor cultural nenhum, tipo essas celebridades instantâneas participantes de reality shows e capas de revistas. No esporte temos a mania de cultuar apenas a vitória. Só interessa ser campeão. Segundo lugar, medalha de prata, de bronze, ou até mesmo uma posição de destaque num ranking extenso, pouco se valoriza. Outro dia critiquei uma atitude do campeão olímpico César Cielo e muita gente rebateu. Xingamentos e tudo mais. Mas será que seria igual se o garoto da natação tivesse sido bronze? Ou se tivesse ficado em 5º lugar nas Olimpíadas? Não vejo toda essa boa vontade com nomes como Thiago Pereira, Daiane dos Santos e Diego Hypólito. Todos se destacaram, mas não trouxeram uma medalha. Mas e daí? Tenho também uma de prata em casa que conquistei com a seleção de futebol em Seul 88 e pouca gente sabe.

Estou falando tudo isso porque sinceramente queria entender a “rejeição” do povo brasileiro com o piloto Rubens Barrichello. Esse cara é um vencedor. Foi duas ou três vezes vice-campeão da F-1, venceu várias corridas, é o piloto mais antigo da categoria e pouca gente dá moral. A única coisa que o brasileiro sabe ficar tirando sarro. Mas onde está a graça? Sacanearam ele a vida toda e mesmo assim se mostrou grande. Digno do status de um grande ídolo nacional. Pra falar a verdade, o Rubinho é mais exaltado fora do que dentro do Brasil.

O que reforça a minha tese são esses fatos envolvendo o Nelsinho Piquet. Todos davam mais valor para o rapaz porque ele é filho de um tricampeão. Mas olha aí no que pode dar! Ídolo mesmo de caráter é o Rubinho. Ele pode não ser tão brilhante como o Senna, mas sempre será ídolo e merecedor de todo meu carinho e respeito.

Rei das piscinas

Autor: dtakata

No próximo dia 2 de junho será celebrado o centenário de nascimento de Johnny Weissmuller, um dos maiores, se não o maior, nadador da história. Você não sabe quem é ele? E se eu disser simplesmente Tarzan?

Sim, Weissmuller é um caso raro de personalidade que conseguiu se consagrar atuando em dois ramos completamente diferentes. Na natação, foi escolhido o maior nadador do mundo da primeira metade desse século. E, nos cinemas, Hollywood nunca viu alguém que interpretasse o personagem Tarzan melhor que Weissmuller.

Entre as festividades programadas no dia de seu centenário, planeja-se fazer uma cerimônia comemorativa na Romênia, em Timisoara, na casa onde ele nasceu. Sim, apesar de representar os Estados Unidos por toda sua carreira, Weissmuller na verdade nasceu na cidade de Freidorf (Hungria), que hoje faz parte da Romênia com o nome de Timisoara. Ele emigrou para os Estados Unidos em 1908, onde se fixou na cidade de Winber, Pensilvânia.

Algumas curiosidades sobre Johnny Weissmuller:

- Weissmuller, até os 6 anos de idade, era uma criança raquítica, lenta e descoordenada, incapaz de pronunciar uma palavra. Seu médico recomendou a ele a natação. A terapia deu resultados fantásticos: a criança raquítica cresceu e atingiu 1,90m e 85 quilos.

- Com 16 anos, Weissmuller foi treinar com o técnico William Bachrach, no Illinois Athletic Club. A lenda diz que Bachrach recebeu Weissmuller com as seguintes palavras: “Jura que trabalhará comigo durante um ano inteiro sem abrir a boca para contestar minhas ordens e eu prometo colocá-lo no ponto. Você não enfrentará nenhum outro nadador. Será apenas um escravo e me odiará até as tripas. Mas, no final, estará apto para superar todos os recordes do mundo”.

- O primeiro recorde mundial de Johnny Weissmuller aconteceu no dia 25 de março de 1922, na hoje incomum prova de 300m nado livre. No dia 9 de julho de 1922, bateu seu recorde mais famoso: o dos 100 livre, se tornando a primeira pessoa a abaixar do minuto (58.6).

- Que ele se tornou o primeiro a abaixar do minuto, muita gente sabe. Mas sabiam que ele também foi o primeiro a abaixar dos 5 minutos nos 400 livre? Foi em 1923, quando completou a prova em New Heaven com 4:57.0.

- Na sua primeira Olimpíada, em Paris/1924, Weissmuller encarou ninguém menos que o príncipe havaiano Duke Kahanamoku, bicampeão olímpico dos 100 livre e um dos maiores nadadores da história. A prova ainda contava com Samuel, irmão de Duke. Weissmuller temia por uma intimação da família real, mas Duke o tranqüilizou: "Johnny, boa sorte. A coisa mais importante na prova é que três bandeiras americanas sejam levantadas no alto do pódio". E foi exatamente o que fizeram, com Weissmuller dominando a prova de ponta a ponta.

- Além das conquistas nadando, Weissmuller primava pela versatilidade. Foi bronze na mesma Olimpíada jogando pólo aquático com a equipe americana. E ainda era protagonista de um divertido ato de comédia na piscina de saltos, ao lado de seu companheiro Stubby Kruger, fazendo de Weissmuller um dos competidores mais populares dos Jogos de Paris.

- Em 1924 e 1928, Weissmuller não perdeu nenhuma prova em Olimpíadas – 5 medalhas de ouro. Mas o mais impressionante é que, diz-se, ele nunca perdeu nenhuma prova sequer ao longo da carreira! Ainda bateu 51 recordes mundiais.

- Em 1930, Weissmuller se preparava para os Jogos Olímpicos de 1932 quando recebeu uma proposta de 500 dólares por semana para trabalhar para a BVD Underwear Company, anunciando trajes de banho. Ao aceitar, encerrou a carreira de nadador. Renunciando a condição de amador, não poderia mais participar dos Jogos Olímpicos.

- Ele fez tanto sucesso na carreira de manequim que foi chamado por Hollywood para fazer papel de Tarzan no cinema. Estreou em 1932, com “Tarzan, o Homem Macaco”. Ele atuou em outros 11 filmes como Tarzan em 16 anos. Para rodar “Tarzan Contra o Mundo”, em 1940, recebeu 150 mil dólares, recorde na época.

- Outro campeão olímpico de natação, Buster Crabbe (400 livre em 1932), também interpretou Tarzan em filmes. Mas ninguém se igualou a Weissmuller, o mais famoso Tarzan da história.

- Weissmuller morreu em 20 de janeiro de 1984 num asilo de celebridades em Acapulco, México, aos 79 anos.

Em 1950, em pesquisa da Associated Press, foi eleito o melhor nadador da primeira metade do século. No fim de 1999, a revista norte-americana Swimming World o escolheu como segundo melhor nadador do século no masculino, atrás apenas de Mark Spitz. Muita gente acha que Johnny Weissmuller foi ainda melhor que Spitz, argumentando que Spitz teve, sim, a melhor performance da história (7 medalhas de ouro em Munique/1972), e que Weissmuller quebrou muito mais recordes e venceu muito mais ao longo da carreira. A polêmica está aberta! De qualquer forma, no próximo dia 2 de junho, Johnny Weissmuller estará mais presente do que nunca na mente dos fãs de natação. Será o centenário de um dos maiores nadadores da história. Onde quer que você esteja, preste sua homenagem, lembre-se de seus feitos por alguns instantes, veja como ele influenciou a história da natação. Simplesmente Johnny Weissmuller.

Abaixo, uma cena de Weissmuller nadando e outra dele interpretando Tarzan: rei das selvas e das piscinas!