Arquivo de March 2010
Algum sentido?
Autor: dtakata
A CBDA confirmou essa semana que o Troféu Maria Lenk deste ano será realizado na piscina da Unisanta, em Santos. Será a primeira vez, desde que o parque aquático Maria Lenk foi inaugurado em 2007, que a competição não será realizada no Rio de Janeiro. Essa decisão tem dado muito o que falar, principalmente entre atletas e técnicos, devido ao fato da Unisanta não apresentar uma estrutura adequada para esse tipo de competição, seletiva para o Pan-Pacífico, a principal competição internacional que o Brasil irá disputar este ano.
Reclamações, aliás, que procedem. O Finkel de 2003 foi realizado lá e mesmo sem ser seletiva para nada (na verdade era uma das primeiras competições válidas para tentativa de índice olímpico para 2004, e obviamente nenhum nadador conseguiu alcançar) já foi alvo na época de vários protestos. Sem dúvida foi uma decisão política sem pensar nos nadadores, o que já nos acostumamos a ver nos últimos anos (com todo respeito, não dá para realizar competições importantes em Brasília e Minas Gerais, como já foi feito).
Mas o principal assunto deste post é outro. Uma outra mudança que ninguém comentou muito foi a introdução de semifinais no Maria Lenk nas provas de 50m e 100m. Isso trouxe como consequência o aumento em um dia da competição (agora serão intermináveis sete dias!).
E eu pergunto: para quê isso?
Ninguém se lembra do fiasco de disputa de semifinais no Pan de 2007? As semifinais no Brasil não representarão atrativo nenhum para a mídia, muito menos para os nadadores que terão que se desgastar mais (e logicamente os nadadores top irão nadar muito tranquilamente as semifinais, apenas para obter classificação, e com isso nada de recordes em semifinais que estamos acostumados a ver em competições internacionais).

Eamon Sullivan bateu recorde mundial na semifinal da
Olimpíada. Não veremos nada parecido aqui no Brasil...
Alguém pode argumentar que "é bom o Brasil se adequar ao padrão das competições internacionais para que os atletas não cheguem lá despreparados". Apenas uma competição com semifinais não irá trazer esse preparo aos nadadores. Isso será conseguido nos treinamentos. Além disso, a maior potência da natação mundial, os Estados Unidos, sempre realizam seus campeonatos nacionais sem disputa de semifinais, apenas com eliminatórias e finais. Alguém diria que os nadadores de lá sentem falta das semis? Apenas em anos olímpicos a seletiva olímpica é disputada nos mesmos moldes da Olimpíada, ou seja, uma competição em quatro anos.
Alguns países, como Austrália, adotam o sistema com semifinais em todos os seus nacionais absolutos. Mas não tem nem como comparar. Veja abaixo o número de atletas que disputaram cada prova de 100m no último Troféu Maria Lenk, no último campeonato australiano e na seletiva olímpica americana de 2008:
Maria Lenk 2009
100 livre fem: 32
100 livre masc: 26
100 borbo fem: 22
100 borbo masc: 25
100 costas fem: 19
100 costas masc: 30
100 peito fem: 23
100 peito masc: 21
Campeonato Australiano 2010
100 livre fem: 75
100 livre masc: 67
100 borbo fem: 54
100 borbo masc: 57
100 costas fem: 62
100 costas masc: 58
100 peito fem: 54
100 peito masc: 60
Seletiva Olímpica Americana 2008
100 livre masc: 118
100 livre fem: 99
100 borbo masc: 105
100 borbo fem: 137
100 costas masc: 81
100 costas fem: 121
100 peito masc: 76
100 peito fem: 105
Notem a discrepância do número de atletas. A Austrália e os Estados Unidos têm número suficiente de nadadores que justifica fazer uma seleção de 16 e depois outra de 8. O Brasil não tem!
Sinceramente, não sei a real razão dessa novidade. A única razoável seria dar mais uma chance para os atletas conseguirem índices para competições internacionais. O que é injusto, pois apenas os nadadores de 50m e 100m terão essa oportunidade. Se é para atrair espectadores para as transmissões do SporTV, esqueça: não veremos ninguém chegar perto de recordes em semifinais.
Uma sugestão: esqueçam as semifinais e continuem com finais A e B. Coloquem as finais B para o início das etapas, e comecem as transmissões apenas quando iniciarem as finais A. Assim, vocês conseguirão prender os telespectadores. Do jeito que está, nem eu consigo assistir uma etapa por completo. Com semifinais, isso só tende a piorar.
Reclamações, aliás, que procedem. O Finkel de 2003 foi realizado lá e mesmo sem ser seletiva para nada (na verdade era uma das primeiras competições válidas para tentativa de índice olímpico para 2004, e obviamente nenhum nadador conseguiu alcançar) já foi alvo na época de vários protestos. Sem dúvida foi uma decisão política sem pensar nos nadadores, o que já nos acostumamos a ver nos últimos anos (com todo respeito, não dá para realizar competições importantes em Brasília e Minas Gerais, como já foi feito).
Mas o principal assunto deste post é outro. Uma outra mudança que ninguém comentou muito foi a introdução de semifinais no Maria Lenk nas provas de 50m e 100m. Isso trouxe como consequência o aumento em um dia da competição (agora serão intermináveis sete dias!).
E eu pergunto: para quê isso?
Ninguém se lembra do fiasco de disputa de semifinais no Pan de 2007? As semifinais no Brasil não representarão atrativo nenhum para a mídia, muito menos para os nadadores que terão que se desgastar mais (e logicamente os nadadores top irão nadar muito tranquilamente as semifinais, apenas para obter classificação, e com isso nada de recordes em semifinais que estamos acostumados a ver em competições internacionais).

Eamon Sullivan bateu recorde mundial na semifinal da
Olimpíada. Não veremos nada parecido aqui no Brasil...
Alguém pode argumentar que "é bom o Brasil se adequar ao padrão das competições internacionais para que os atletas não cheguem lá despreparados". Apenas uma competição com semifinais não irá trazer esse preparo aos nadadores. Isso será conseguido nos treinamentos. Além disso, a maior potência da natação mundial, os Estados Unidos, sempre realizam seus campeonatos nacionais sem disputa de semifinais, apenas com eliminatórias e finais. Alguém diria que os nadadores de lá sentem falta das semis? Apenas em anos olímpicos a seletiva olímpica é disputada nos mesmos moldes da Olimpíada, ou seja, uma competição em quatro anos.
Alguns países, como Austrália, adotam o sistema com semifinais em todos os seus nacionais absolutos. Mas não tem nem como comparar. Veja abaixo o número de atletas que disputaram cada prova de 100m no último Troféu Maria Lenk, no último campeonato australiano e na seletiva olímpica americana de 2008:
Maria Lenk 2009
100 livre fem: 32
100 livre masc: 26
100 borbo fem: 22
100 borbo masc: 25
100 costas fem: 19
100 costas masc: 30
100 peito fem: 23
100 peito masc: 21
Campeonato Australiano 2010
100 livre fem: 75
100 livre masc: 67
100 borbo fem: 54
100 borbo masc: 57
100 costas fem: 62
100 costas masc: 58
100 peito fem: 54
100 peito masc: 60
Seletiva Olímpica Americana 2008
100 livre masc: 118
100 livre fem: 99
100 borbo masc: 105
100 borbo fem: 137
100 costas masc: 81
100 costas fem: 121
100 peito masc: 76
100 peito fem: 105
Notem a discrepância do número de atletas. A Austrália e os Estados Unidos têm número suficiente de nadadores que justifica fazer uma seleção de 16 e depois outra de 8. O Brasil não tem!
Sinceramente, não sei a real razão dessa novidade. A única razoável seria dar mais uma chance para os atletas conseguirem índices para competições internacionais. O que é injusto, pois apenas os nadadores de 50m e 100m terão essa oportunidade. Se é para atrair espectadores para as transmissões do SporTV, esqueça: não veremos ninguém chegar perto de recordes em semifinais.
Uma sugestão: esqueçam as semifinais e continuem com finais A e B. Coloquem as finais B para o início das etapas, e comecem as transmissões apenas quando iniciarem as finais A. Assim, vocês conseguirão prender os telespectadores. Do jeito que está, nem eu consigo assistir uma etapa por completo. Com semifinais, isso só tende a piorar.
Marcos Chaiben (1958-2010)
Autor: dtakata

"One by one
Only the Good die young
They're only flyin' too close to the sun
And life goes on
Without you"
(Brian May)
Only the Good die young
They're only flyin' too close to the sun
And life goes on
Without you"
(Brian May)
Laureus 2010
Autor: dtakata
Esta semana, foi realizada em Abu Dhabi, Emirados Árabes, a cerimônia de entrega do prêmio Laureus, tido como o "Oscar do esporte", concedido aos melhores atletas do mundo do ano anterior.
Sem muita surpresa, os vencedores da principal categoria foram a tenista americana Serena Williams e o corredor jamaicano Usain Bolt, ambos conquistando o bicampeonato do prêmio (Williams havia vencido em 2005 e Bolt no ano passado). No feminino, concorriam as nadadoras Federica Pellegrini, da Itália, e Britta Steffen, da Alemanha. Entre os homens, nenhum nadador foi indicado.
Mas a natação não saiu de mãos abanando. A sul-africana Natalie du Toit conquistou o prêmio de para-atleta do ano por "ter quebrado as barreiras no esporte entre pessoas com e sem deficiência física". Esta homenagem é justa, já que du Toit se notabilizou por competir de igual para igual com as melhores nadadoras, mesmo tendo parte da perna esquerda amputada abaixo do joelho. Em 2002, foi finalista dos Jogos da Comunidade Britânica nos 800m livre, se tornando a primeira atleta amputada a disputar uma final de natação em uma grande competição internacional contra nadadoras em perfeitas condições físicas. Em 2004, por pouco não se classificou para os Jogos Olímpicos de Atenas. Em 2008, obteve qualificação para disputar a prova de águas abertas em Pequim, onde terminou na 16ª posição.
O Laureus foi merecido, mesmo ela não tendo tanto destaque em 2009 como teve em 2008. Na realidade, ela só não levou o mesmo prêmio no ano passado porque em sua categoria ele foi concedido a outro nadador: o brasileiro Daniel Dias, vencedor de nove medalhas nos Jogos Paraolímpicos de 2008.
Isso nos leva a um dado curioso. O Laureus existe desde 2000. Até hoje, apenas Daniel Dias e Natalie du Toit são os nadadores que foram agraciados, em todas as categorias (esportista do ano, equipe do ano, estreante do ano, retorno do ano, para-atleta do ano, atleta de ação do ano, prêmio pela carreira e prêmio de espírito esportivo). Em 2004, Michael Phelps conquistou seis ouros e duas pratas nos Jogos de Atenas, mas perdeu o prêmio de esportista do ano para o tenista Roger Federer. Em 2008, fez ainda melhor e se tornou o maior atleta olímpico da história com a melhor performance de todos os tempos em Pequim. Mesmo assim, foi derrotado por Usain Bolt. O que um nadador precisa fazer para conquistar a principal categoria do Oscar do esporte? Penso que talvez Mark Spitz também não conseguiria vencer se em sua época o prêmio existisse.
Voltando a Natalie du Toit, uma história interessante. Antes do acidente que levou à amputação de parte de sua perna, em 2001, um treinador deu a ela um poema de origem desconhecida. Ela redescobriu o poema após o acidente. Antes, não significava muito para ela. Hoje, ela tem escrito na parede do seu quarto.
Sem muita surpresa, os vencedores da principal categoria foram a tenista americana Serena Williams e o corredor jamaicano Usain Bolt, ambos conquistando o bicampeonato do prêmio (Williams havia vencido em 2005 e Bolt no ano passado). No feminino, concorriam as nadadoras Federica Pellegrini, da Itália, e Britta Steffen, da Alemanha. Entre os homens, nenhum nadador foi indicado.
Mas a natação não saiu de mãos abanando. A sul-africana Natalie du Toit conquistou o prêmio de para-atleta do ano por "ter quebrado as barreiras no esporte entre pessoas com e sem deficiência física". Esta homenagem é justa, já que du Toit se notabilizou por competir de igual para igual com as melhores nadadoras, mesmo tendo parte da perna esquerda amputada abaixo do joelho. Em 2002, foi finalista dos Jogos da Comunidade Britânica nos 800m livre, se tornando a primeira atleta amputada a disputar uma final de natação em uma grande competição internacional contra nadadoras em perfeitas condições físicas. Em 2004, por pouco não se classificou para os Jogos Olímpicos de Atenas. Em 2008, obteve qualificação para disputar a prova de águas abertas em Pequim, onde terminou na 16ª posição.
O Laureus foi merecido, mesmo ela não tendo tanto destaque em 2009 como teve em 2008. Na realidade, ela só não levou o mesmo prêmio no ano passado porque em sua categoria ele foi concedido a outro nadador: o brasileiro Daniel Dias, vencedor de nove medalhas nos Jogos Paraolímpicos de 2008.
Isso nos leva a um dado curioso. O Laureus existe desde 2000. Até hoje, apenas Daniel Dias e Natalie du Toit são os nadadores que foram agraciados, em todas as categorias (esportista do ano, equipe do ano, estreante do ano, retorno do ano, para-atleta do ano, atleta de ação do ano, prêmio pela carreira e prêmio de espírito esportivo). Em 2004, Michael Phelps conquistou seis ouros e duas pratas nos Jogos de Atenas, mas perdeu o prêmio de esportista do ano para o tenista Roger Federer. Em 2008, fez ainda melhor e se tornou o maior atleta olímpico da história com a melhor performance de todos os tempos em Pequim. Mesmo assim, foi derrotado por Usain Bolt. O que um nadador precisa fazer para conquistar a principal categoria do Oscar do esporte? Penso que talvez Mark Spitz também não conseguiria vencer se em sua época o prêmio existisse.
Voltando a Natalie du Toit, uma história interessante. Antes do acidente que levou à amputação de parte de sua perna, em 2001, um treinador deu a ela um poema de origem desconhecida. Ela redescobriu o poema após o acidente. Antes, não significava muito para ela. Hoje, ela tem escrito na parede do seu quarto.
"A tragédia da vida não está em não alcançar seus objetivos;
A tragédia da vida está em não ter objetivos para alcançar.
Não é uma desgraça não atingir as estrelas,
Mas é uma desgraça não ter estrelas para atingir."
A tragédia da vida está em não ter objetivos para alcançar.
Não é uma desgraça não atingir as estrelas,
Mas é uma desgraça não ter estrelas para atingir."

2010 - Um ano que NÃO promete
Autor: dtakata

Guilherme Freitas escreveu há alguns dias um texto para a Bestswimming intitulado 2010 - Um ano que promete (para lê-lo, clique aqui). Aqui, apresentamos o outro lado da moeda.
2010 é um ano de transição. Assim como foram 2002 e 2006. Anos intermediários de ciclos olímpicos, sem disputas das principais competições da modalidade (Olimpíada e Mundial de longa). Não por isso deixará de haver competições interessantes: Pan-Pacífico, Jogos da Comunidade Britânica, Campeonato Europeu - isso tudo para ficar em piscina de 50m. Convenhamos, um Europeu de longa vale muito mais que um Mundial de Curta!
No entanto, dos quatro anos do ciclo olímpico atual, 2010 será o único no qual os melhores do mundo não se enfrentarão em sua melhor forma. Phelps x Biedermann? Cielo x Bernard? Só no ano que vem.
Além disso, entraremos num período no qual o mundo terá que se acostumar a nadar sem os trajes tecnológicos que povoaram as piscinas nos dois últimos anos. Por tradição, o ano que antecede em dois anos a próxima Olimpíada tem menos recordes mundiais que os anos seguintes (em 2002, tivemos 12 recordes, contra 18 em 2003 e 17 em 2004. 2006 viu 19 recordes, contra 55 de 2008 e 64 de 2009). Mas por causa dos fortíssimos tempos alcançados em 2008 e 2009 impulsionados pelos trajes, não esperem nenhum recorde mundial em 2010. Um ou outro pode até sair, mas será algo inesperado.
Tudo isso, lembrando, considerando apenas piscina longa. O Mundia de Curta, que será em dezembro nos Emirados Árabes, representa muito pouco. Como já dizia (exageradamente) Alexander Popov, "piscina curta é um tipo de brincadeira de criança".
Por fim, 2010 é ano de Copa do Mundo de futebol. Por isso, nada do que César Cielo (ou outro nadador brasileiro) fizer em um ano sem Mundial ou Olimpíada será suficiente para ocupar as manchetes esportivas do jeito que foi em 2008 e 2009.
Obviamente os nadadores não querem saber disso e continuarão motivados em busca de seus objetivos. Além disso, 2011 e 2012 estão aí. Mas, por tudo que foi escrito acima e, principalmente, comparando com os dois últimos anos e com os dois anos a seguir, 2010 é um ano que não promete!