Arquivo de February 2010

Derrotando até a morte

Autor: dtakata

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Brooke Bennett foi o último grande nome da natação de fundo dos Estados Unidos. E lá se vão quase 10 anos de sua consagração olímpica, em Sydney. Desde então, nenhum americano conquistou medalhas de ouro nos 400m, 800m e 1500m livre em Jogos Olímpicos. Kate Ziegler chegou a vencer os 800m e 1500m nos Mundiais de 2005 e 2007, mas decepcionou na Olimpíada de Pequim. Por isso, até hoje Bennett é considerada um parâmetro da natação de longa distância para os jovens americanos.

Sua primeira grande glória, conseguida com apenas 16 anos, foi a vitória olímpica nos 800m livre em 1996, medalha que ela dedicou ao seu avô, falecido dias antes da conquista. Também representou a passagem do bastão da melhor fundista americana até então - Janet Evans, bicampeã olímpica dos 800m em 1988 e 1992, em Atlanta terminou na quinta posição na última prova de sua carreira. Em 1998, outro ouro no Mundial de Perth. Nos Jogos de Sydney, em 2000, vitórias nos 400m e 800m livre, esta última com recorde olímpico. Justamente nessa época em que reinava absoluta e ninguém ameaçava seu domínio, ela precisou passar por cirurgias nos dois ombros em 2001 (ao observar seu estilo de nado, fica fácil entender a razão das lesões). Sua carreira a partir de então não foi mais a mesma. Em 2004, ficou na terceira posição nos 800m livre na Seletiva Olímpica Americana e não se classificou para os Jogos de Atenas.

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Essa é a história que todos conhecem de Brooke Bennett. Poucos sabem que, em 2006, ela retornou às piscinas sob o comando de Peter Banks, o técnico dos tempos de glória, na esperança de voltar aos melhores dias. Como isso não aconteceu, em janeiro de 2008 ela oficialmente assinou os papéis de sua aposentadoria da natação competitiva.

E poucos também ficaram sabendo que a vida de Bennett esteve por um fio no final do ano passado. No dia 30 de outubro, ela saía de seu trabalho e dirigia seu BMW, quando um dos pneus estourou. O carro capotou duas vezes e atingiu uma árvore. Ela foi levada imediatamente a um hospital, onde recebeu alguns pontos na cabeça atingida por pedaços de vidro e passou por uma cirurgia por causa de uma fratura na pélvis, a qual teve que receber dois pinos.

Abaixo, alguns trechos de uma entrevista que ela concedeu para o site Swimnetwork.

"A recuperação é lenta, segui direitinho as ordens de ficar na cama por 8 semanas. Fui autorizada a voltar à minha rotina somente no último dia 21 (de janeiro). Tenho nadado para ajudar na recuperação".

"Estou trabalhando em um canal de esportes local. Sou apresentadora de esportes da high school da área de Tampa Bay/Central Florida".

"Disputei meu primeiro mundial em 1994, aos 14 anos, por isso desde cedo me acostumei a ter um gravador, um microfone e uma câmera na minha frente. Como agora sou eu que farei as reportagens com as jovens estrlas da high school, posso entender seus sentimentos e emoções, o que me ajuda a ter uma boa história".

"Após o acidente e de outras coisas que aconteceram em minha vida, acredito fortemente que as coisas acontecem por uma razão. Se são coisas boas ou ruins, felizes ou tristes, todas elas fazem de você uma pessoa mais forte".

"Não posso acreditar que, após os Estados Unidos serem tão fortes nas provas de fundo desde a época de domínio da Janet Evans nos anos 80, nós não tivemos nenhuma finalista nos 800m livre nos Jogos de Pequim".

"Para os próximos anos, aposto em Ryan Lochte, que lida muito bem em viver na sombra de Michael Phelps e pode ser um dos melhores da historia, e em Chloe Sutton, uma grande fundista".

"A natação me ensinou que você pode conseguir qualquer coisa que você colocar em sua mente. Nos últimos dois anos, penei um pouco para me encontrar fora da piscina, mas jamais desisti dos meus objetivos. Sonhe grande - você pode conseguir qualquer coisa".


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Spitz sexagenário

Autor: dtakata

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Quando eu era (bem) mais jovem, no alto da sabedoria dos meus 10 anos de idade, ouvia falar das façanhas de Mark Spitz, com seus sete ouros e sete recordes mundiais nas Olimpíadas de 1972, e pensava: "nunca ninguém vai igualar esse cara!". Na Olimpíada de 1992, assisti ninguém conquistar mais que duas medalhas de ouro individuais, e a esperança por um novo Spitz se esvaia. Ou melhor, Krisztina Egerszegi venceu três provas, mas ela era húngara. "A Hungria não tem revezamentos. Para alguém conquistar sete ouros, tem que ser americano", pensava. Mas mesmo assim, sete recordes mundiais era impossível!

Aspirantes à façanha de Spitz não faltaram. O primeiro foi o americano Matt Biondi, que em Seul/1988 levou sete medalhas, mas "somente" cinco de ouro. O australiano Michael Klim foi sete vezes medalhista no Mundial de 1998, mas não se arriscou em sete provas nos Jogos de 2000. Seu compatriota Ian Thorpe, seis ouros no Mundial de 2001 em sete provas, também nunca nadou sete provas em Olimpíadas.

Mas no início da década surgiu Michael Phelps, e o resto da história todos conhecem. Quatro ouros no Mundial de 2003, seis ouros nos Jogos Olímpicos de 2004, sete ouros no Mundial de 2007 e, finalmente, oito ouros na Olimpíada de 2008, com sete recordes mundiais.

Spitz foi colocado um degrau abaixo na escala dos maiores nadadores da história. Mas é inegável que seu feito de 1972 estabeleceu um (alto) parâmetro para os nadadores das décadas seguintes.

Não existe melhor dia para relembrar sua trajetória do que hoje, dia de seu 60º aniversário. Acompanhe abaxo fatos e feitos daquele que hoje é considerado o segundo maior nadador da história.

- Mark Andrew Spitz nasceu no dia 10 de fevereiro de 1950, filho de Arnold e Lenore Smith Spitz. Ironicamente, sua cidade natal chama-se Modesto, na California. Modéstia seria uma característica que definitivamente não o acompanharia em sua carreira...

- Em sua juventude, Spitz não se cansava de vencer competições e quebrar recordes. Antes de completar 11 anos, já tinha 17 recordes nacionais em sua faixa de idade. Em quatro anos, entre 1964 e 1968, treinando com o legendário George Haines no Santa Clara Swim Club, estabeleceu recordes nacionais da high school em todos os estilos e em todas as distâncias, um feito sem precedentes. Seu espírito competitivo certamente foi herdado de seu pai, que não queria de seu filho apenas medalhas, e sim recordes mundiais e feitos impressionantes. "Nadar não é importante: vencer é", dizia ao pequeno Mark.

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- Nos Jogos Pan-Americanos de 1967, em Winnipeg (Canadá), conquistou cinco medalhas de ouro. Na época dos Jogos de 2007, no Rio de Janeiro, nos quais Thiago Pereira conquistou seis ouros, falou-se muito na imprensa que o brasileiro superou o recorde histórico de medalhas que era de Spitz em Pans. Isso NÃO é verdade. Obviamente, a imprensa brasileira, querendo encontrar um paralelo e uma possibilidade de comparação entre as várias conquistas de Thiago e os feitos do até então maior nadador da história, inventou essa bobagem. O fato é que, até 1967, a performance de Spitz era a melhor em Pans, mas foi superada logo em 1971 pelo seu compatriota Frank Heckl, com seis ouros. Portanto, Thiago em 2007 igualou o feito de Heckl. Superou sim a performance de Spitz, mas esta não representava mais nenhum recorde.

- Aos 18 anos, Spitz, arrogante e petulante, prometeu seis medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1968, no México. Não chegou nem perto e saiu de lá decepcionado. Ganhou duas medalhas de ouro (4x100m e 4x200m livre), uma de prata (100m borboleta) e uma de bronze (100m livre). A derrota mais decepcionante foi nos 200m borboleta. Ele era o recordista mundial com 2:05.7. Entretanto, na final, fez apenas 2:13.5, suficiente para o oitavo lugar. Ele também era o recordista mundial dos 100m borboleta.

- Após os Jogos de 1968, desapontado, Spitz resolveu mudar. Ao entrar na Universidade de Indiana, foi treinar com James Doc Counsilman, outra lenda da natação. Counsilman sabia mexer com a cabeça de seus atletas. Spitz chegou aos Jogos de 1972 ainda arrogante, mas muito mais confiante.

- Nos 200m borboleta, abaixou seu recorde mundial em quase um segundo. "Esta foi uma prova decisiva", analisou Peter Daland, chefe da equipe de natação americana. "Se tivesse perdido, o desastre de 1968 poderia se repetir". Uma hora depois, ajudou os EUA a vencerem o 4x100m livre com uma nova marca mundial.

- No dia seguinte, voltou à piscina para os 200m livre. Seu compatriota e rival Steve Genter havia passado por uma pequena cirurgia no pulmão quinze dias antes, e Spitz o aconselhou a desistir da prova. Segundo Spitz, sua sugestão visava apenas preservar a saúde do colega. Segundo Genter, era parte de uma guerra psicológica. Spitz conseguiu a terceira vitória e o terceiro recorde mundial, alcançando Genter nos 50 metros finais. Dois dias depois, mais duas marcas mundiais: 100m borboleta e 4x200m livre.

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- Spitz já tinha cinco medalhas de ouro. Era, até então, o maior vencedor na natação em uma edição dos Jogos. Se conquistasse a sexta, seria o maior vencedor em todos os esportes. E o sexto ouro estava praticamente assegurado, já que ele, como vencedor dos 100m borboleta, tinha assegurada uma vaga no revezamento 4x100m medley. Por isso, Spitz pensava em desistir dos 100m livre, pois seu compatriota Jerry Heidenreich representava uma séria ameaça. Na cabeça de Spitz, era melhor disputar quatro provas e vencer todas do que nadar sete provas e vencer “apenas” seis. Quando ouviu os rumores de que Spitz pensava em desistir dos 100m livre, seu antigo técnico, Scherman Chavoor, que estava em Munique como técnico do time feminino dos EUA, correu para vê-lo. Disse: "Você pode ter cinco ou sete medalhas, mas não seis. Porque se não nadar os 100m livre, não vai disputar o revezamento 4x100m também". E prosseguiu, atingindo o ponto fraco de Spitz: "Se desistir agora, vão dizer que você está com medo, que você é um galinha”. Ser chamado de galinha era demais. Spitz nadou os 100m livre e venceu com recorde mundial, feito repetido no 4x100m medley, seu sétimo ouro e sétimo recorde mundial.

- Spitz retornou aos EUA como herói, como celebridade. Mostrou que sabia explorar sua imagem. Virou capa de revistas, viu seus encontros com a namorada virarem tema de reportagem, bateu recordes de audiência na TV ao raspar o famoso bigode diante das câmeras. Foi ainda um dos primeiros atletas a cobrar para dar palestras e ganhou um programa de televisão com o comediante Bob Hope.

- Se retirou do esporte em 1972, depois de 33 recordes mundiais e 38 recordes americanos. Formado em ortodontia, nunca chegou a exercer a profissão, e sempre ganhou a vida em eventos e palestras motivacionais, além dos inúmeros contratos de patrocínio. Voltou a nadar em 1991 para tentar fazer parte do time olímpico americano de 1992 nos 100 borboleta. Mas tudo não passou de mais uma peça de marketing. Na piscina, mostrou que não podia mais enfrentar a garotada, e sequer conseguiu índice para disputar a seletiva americana.

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Futebol x outros

Autor: dtakata

Em dezembro do ano passado, publicamos um post sobre a nova revista de natação brasileira, a iSwin, com lançamento previsto para julho deste ano (para ler o texto, clique aqui. Nunca na história do país uma revista de natação vingou. Tentativas não faltaram, mas nenhuma conseguiu se sustentar por muito tempo.

O texto abaixo foi retirado do blog de Juca Kfouri, jornalista que se diz esportivo mas que na verdade se dedica quase que integralmente ao futebol. Na verdade, o texto é antigo, de 1999, mas traz, com argumentos e fatos, uma das possíveis razões de publicações esportivas não darem certo no Brasil.

Por que só falamos de futebol

Primeiro foi o José Trajano, com a paixão e a generosidade que o caracterizam.

Depois, o José Roberto Torero, sempre criativo e original.

Ambos preocupados em chamar a atenção para os brasileiros que estão no Pan-Americano, os primos pobres do esporte nacional, quase monopolizado pelos jogadores de futebol.

A verdade é que todos nós damos muito menos importância a nossos atletas olímpicos do que aos boleiros.

Conheço bem essa história – e não é de hoje.

Dezenas de vezes, quando dirigia a revista “Placar”, fui questionado em escolas de jornalismo e de educação física sobre o pouco espaço dedicado aos outros esportes.

Sempre respondi que os outros não vendiam.

Nem mesmo quando houve a célebre explosão do vôlei (um Maracanãzinho lotado equivale a um Maracanã quase vazio – e nenhuma revista de qualquer outro esporte jamais prosperou no Brasil).

Havia reações indignadas até, como se eu fosse um escravo do lucro, um capitalista sem alma.

Então, entre outras coisas, explicava que não era o dono da revista.

Até que um belo dia, em 1984, porque também o desorganizado futebol brasileiro não permitia uma revista semanal de sucesso, a Abril resolveu apostar numa publicação mais eclética, e criamos “Placar Todos os Esportes”, com equipe de primeira, consultores da melhor qualidade e acabamento refinado.

Era a tentativa de se fazer a famosa, e extremamente bem-sucedida, “Sports Illustrated” no Brasil.

Após o primeiro número, recebi um bilhete entusiasmado de Roberto Civita, o dono da Abril.

“Enfim, virei leitor de Placar. Parabéns!”.

O sinal vermelho havia sido aceso numa semana em que a velha “Placar” tinha vendido menos do que 100 mil exemplares, número mágico.

Pois bem. Quatro ou cinco semanas depois do lançamento da nova fórmula, Civita me telefona para fazer novo elogio, e eu, preocupado, o alerto que as vendas não eram animadoras, que tínhamos vendido apenas 75 mil exemplares na semana anterior. Ouço dele uma previsão tranqüilizadora. “Estamos trocando de público. Não vou me assustar se chegar a cair até uns 35 mil. Depois, vai reagir, porque o caminho está certo, a revista está ótima”.

Pouco tempo depois, já apavorado, encontro o patrão numa solenidade e informo: “Roberto, estamos quase atingindo seu objetivo. Na semana passada, vendemos 40 mil”. Foi o que bastou para, em seguida, “Placar” voltar a ser uma revista basicamente de futebol e resistir ainda mais cinco anos como semanal.

Enfim, a questão é parecida com aquele anúncio de biscoitos: o Brasil é monoesportivo porque a imprensa só fala de futebol ou a imprensa só fala de futebol porque o Brasil é monoesportivo?

Tendo a achar que a segunda hipótese é a correta.