Por um feito inédito

Autor: dtakata

Cesar Cielo


O programa da natação olímpica tem 26 provas individuais.

Em somente uma delas, jamais o nadador que chegou à Olimpíada como recordista mundial conseguiu levar o ouro.

Em todas as outras 25, isso já ocorreu pelo menos uma vez.

Em 1988, na primeira vez que o 50m livre foi disputado em Olimpíadas, o sul-africano Peter Williams tinha a melhor marca do mundo, mas o americano Matt Biondi venceu com recorde mundial. Entre 1989 e 2000, o recordista foi o americano Tom Jager, que ficou em 3º em 1992 e não nadou em 1996. Entre 2000 e 2008, o dono do recorde foi o russo Alexander Popov, que ficou em 6º em 2000 e sequer chegou à final em 2004. Em 2008, o recordista era o australiano Eamon Sullivan, e o vencedor olímpico foi Cesar Cielo.

Com um tempo obtido na época dos trajes tecnológicos (20.91), Cielo muito provavelmente chegará como recordista mundial aos Jogos de Londres. Derrubará ele mais esta escrita?

Números da seleção olímpica brasileira

Autor: dtakata



Com o término da tentativa olímpica, no último final de semana, no Maria Lenk, terminaram também as chances para fazer parte da equipe olímpica brasileira de natação. Pode ser que um ou até dois reservas sejam levados para o revezamento 4x100m livre masculino. Mas, tirando isso, a seleção está definida e conta com:

Estreantes: Graciele Herrmann, Bruno Fratus, Daniel Orzechowski, Felipe Lima, Glauber Silva, Henrique Rodrigues, Leonardo de Deus, Marcelo Chierighini e Tales Cerdeira.

2ª Olimpíada: Daynara de Paula, Cesar Cielo, Nicolas Oliveira, Felipe França e Henrique Barbosa.

3ª Olimpíada: Fabíola Molina, Joanna Maranhão, Kaio Márcio de Almeida e Thiago Pereira.

- Com 18 nadadores, essa é a terceira maior delegação que a natação brasileira envia a uma Olimpíada. Em 2004, foram 23 atletas, e em 2008, 22 (considerando somente aqueles que nadaram, ou seja, não estão contabilizados os reservas que não disputaram nenhuma prova).

- Com 14 homens, é a segunda maior delegação brasileira masculina da história, ficando atrás somente da seleção de 2004 (15 homens).

- Em média, essa é a mais velha equipe brasileira. A média de idade, na época dos Jogos de Londres, será de 25 anos e 4 meses. Supera, portanto, a média da equipe de 1956, que tinha 24 anos e 10 meses.

- Naquele ano de 1956, a média de idade foi elevada pela presença de Octavio Mobiglia, que nadou os 200m peito e que tinha 33 anos e 7 meses. Nadador brasileiro mais velho que ele em Olimpíadas, havia somente Rogério Romero, que nadou em 2004 com 34 anos e 8 meses. Eu disse havia, pois em 2012 Fabíola Molina tomará esse posto, ao disputar os Jogos com 37 anos e 2 meses. Fabíola já era a mulher brasileira mais velha a nadar uma Olimpíada (33 anos e 2 meses em 2008), e na história da natação olímpica feminina somente Dara Torres, com 41 anos em 2008, foi mais velha que Fabíola a disputar uma edição.

- A nadadora mais jovem deste ano, Gracielle Herrmann (20 anos e 6 meses), passa longe dos atletais brasileiros mais novos que nadaram os Jogos. Em 1948, Talita Rodrigues competiu com 13 anos e 11 meses. E mesmo em tempos mais recentes, podemos citar Ricardo Prado (15 anos e 6 meses em 1980), Isabelle Vieira (16 anos e 10 meses em 1988) e Joanna Maranhão (17 anos e 3 meses em 2004).

- Fabíola Molina e Joanna Maranhão irão para a disputa da terceira Olimpíada, igualando a marca de Piedade Coutinho como nadadoras brasileiras que mais nadaram Jogos Olímpicos. No masculino, Rogério Romero nadou cinco vezes e Gustavo Borges, quatro.

- Um recorde que Joanna Maranhão superará em Londres será a de nadadora brasileira com mais provas disputadas, no feminino. Ela já disputou seis provas em suas duas Olimpíadas (200m e 400m medley e 4x200m livre em 2004; e 200m borboleta, 200m e 400m medley em 2008). Está empatada com Piedade Coutinho, mas a superará em Londres. No lado masculino, da atual equipe, Kaio Márcio (6 provas) e Thiago Pereira (5) são os que mais disputaram. Ficam longe dos recordistas Gustavo Borges (13 provas em 4 Olimpíadas), Jorge Luiz Leite (11) e Rogério Romero (10).

- Da atual equipe, Thiago Pereira já disputou três finais olímpicas (200m medley em 2004 e 200m e 400m medley em 2008). No Brasil, ele só perde para Gustavo Borges (7 finais disputadas), Djan Madruga (5) e Fernando Scherer (4). Entre as mulheres, Joanna Maranhão, com duas finais (400m medley e 4x200m livre em 2004) só fica atrás de Piedade Coutinho (3 finais).

Phelps fala

Autor: dtakata

Michael Phelps


No último domingo, foi ao ar na CBS dos Estados Unidos o programa 60 Minutes, especial com Michael Phelps. Nenhuma novidade, até porque a maioria das entrevistas com ele (e os destaques da natação) são mais do mesmo. "Quais são seus objetivos para Londres?", "o que sentiu quando venceu aquela prova?", "quem são seus principais rivais?", etc. Estamos cheios disso aqui no Brasil, e lá fora não é diferente. Mas esse programa, que também falou com seu técnico Bob Bowman e sua mãe Debbie, trouxe muita informação interessante e declarações surpreendentes. Para ver o vídeo e extras, clique aqui. Mas, mais que as imagens, o que realmente importa são as declarações em si, as principais transcritas abaixo.

Sobre a falta de motivação após os oito ouros nos Jogos de Pequim, em 2008.

Phelps: Após Pequim, houve incontáveis vezes que falei para mim mesmo, "não quero mais fazer isso, não quero ir para a piscina todos os dias". Agora não (é tão difícil), porque, primeiro, os Jogos estão muito próximos, e segundo, porque realmente estou gostando. Estou nadando bem novamente.

Bob Bowman (técnico): Sua forma agora está muito melhor do que há um ano. Há um ano, em uma escala de um a dez, ela estava em dois, e agora está em oito ou nove. Eu estava muito preocupado. Tinha medo de que ele não se recuperasse. Após Pequim, eu achava que tinha 50% de chances de ele não voltar a nadar.

Debbie Phelps (mãe): Disse para ele, "Michael, ou você vai ou não vai. Você quer mesmo enfrentar esses quatro anos? É um tempo muito longo."

Phelps: Foi difícil, porque não sabia se ainda tinha aquela paixão, aquele fogo dentro de mim. Demorou um pouco até eu descobrir. Bob não podia me dizer, minha mãe não podia me dizer. Eles não podiam me ajudar. E aquele caso (refere-se quando foi flagrado fumando maconha, no final de 2009) foi provavelmente o ponto mais baixo de minha carreira. Ver como aquilo afetou as pessoas à minha volta, aquilo foi o que mais me machucou. Foi estúpido. Me coloquei em uma posição ruim. Depois daquilo, não tinha vontade de fazer nada. Acordava às 11 da manhã, não saia de casa, só jogava videogame, estava totalmente largado.

Bowman: Até 2008, ele nunca havia perdido um treino. No outono de 2009, ele perdeu umas seis semanas de treino. No verão de 2010, uma semana antes do Campeonato Americano, num período que eu faço um treino muito importante, cheguei no sábado de manhã e ele não estava lá. Aquilo não me deixou feliz. Mais tarde, descobri que ele tinha ido para Las Vegas passar o fim-de-semana. Certamente ele não foi treinar lá, apesar que eu acho que ele estava na piscina! (risos)

Phelps: Talvez tenha sido porque assisti o filme "Se Beber Não Case". Vi o filme e pensei, "cara, quero ir para Las Vegas!" Então eu e uns amigos pegamos e fomos. Eu não estava muito afim de ir para a piscina, então se eu acordasse e quisesse jogar golf, iria jogar golf. Se eu quisesse ir para Las Vegas, eu iria para Las Vegas. E não me senti culpado. Estava escapando da piscina.

Phelps: Nos últimos anos, minhas performances foram, ao meu ver, horríveis. Desde Pequim, elas não estiveram em um patamar na qual gostaria que estivessem. E a causa disso é que eu passei muito tempo no campo de golfe, e não frequentando os treinos. Havia vezes que eu gostaria de nadar, e outras não. Foram vários altos e baixos nos últimos três anos.

Phelps: Até que um dia, não sei o que bateu em mim, simplesmente acordei e disse, "vamos lá" (para mais uma Olimpíada). Ao ir para o Mundial no ano passado, foi a primeira vez que senti aquele tesão e aquela paixão novamente. Agora me sinto como antigamente. Estou fazendo tempos como fazia antes, nadando provas como fazia antes. Tudo está voltando a ser como era antes de 2008.

Bowman: Ele pode (vencer várias medalhas de ouro em Londres). Mas não sei quantas. Pergunte a ele.



Michael Phelps


Quando pedido para mostrar suas medalhas olímpicas, Phelps mostra sete de Atenas. A outra ele não sabe onde está. O entrevistador se surpreende mais ainda quando Phelps mostra onde estão guardadas as oito medalhas de ouro de Pequim: em uma necessarie, envoltas em uma camiseta velha. É a primeira vez que ele junta as medalhas de suas duas Olimpíadas.

Sobre os Jogos de 2016 e a aposentadoria:

Debbie Phelps: Quero ir para o Rio em 2016! Quero mesmo! Ele disse que me levaria para lá nas férias, mas vamos lá Michael, só os cinquentinha! Quero que ele nade no Rio, e além disso nunca fui para lá!

Phelps: Vamos para lá, mas só para assistir. Quando eu me aposentar, estará acabado. Ao longo de todos esses anos, pude viajar para vários lugares maravilhosos e não pude conhecê-los. Conheci somente hotéis e piscinas. E (após os Jogos de Londres) vou fazer o que quero fazer.


Sobre a relação com seu técnico de longa data Bob Bowman:

Phelps: A primeira vez que vi Bob, o odiei! (risos) Não queria ter que nadar com ele! Eu estava brincando na piscina, e via ele dando bronca, gritando com os nadadores. Pensei, "jamais vou nadar com esse cara". E as coisas mudaram, 15 anos depois aqui estamos nós, e ainda estou nadando com ele!

Bowman: Não fiquei muito empolgado a primeira vez que vi Michael. Achei que ele fosse um grande problema! Ele tinha 10 anos, correndo em volta da piscina, cheio de energia, e usando aquela energia de uma maneira não muito positiva. E ele também não queria trabalhar comigo. Ele achava que eu era muito malvado. E eu era mesmo! Nossa relação mudou, sem sombra de dúvida. Acho que finalmente descobri, após muito tempo, que simplesmente mostrar o programa de treinamento não é o suficiente e eu não posso fazer por ele se ele não quiser fazer. Ele precisa investir no programa e precisa ter motivação para cumpri-lo por contra própria, sem depender de mim. Isso faz as coisas melhores. E após todo esse tempo, acho que somos como família. Vi-o crescer e a criança virar homem.

Phelps: Ele é como um pai para mim. Ele esteve disponível em todos os momentos, sempre que precisei. Já é parte da minha família. Se não fosse por ele, eu não estaria aqui. Não seria a pessoa que sou hoje.


Michael Phelps e Bob Bowman

O azedo do Popov

Autor: dtakata

Alexander Popov


O russo Alexander Popov é um dos maiores nadadores da história. Em 2008, foi escolhido o quinto melhor nadador de todos os tempos em uma lista elaborada pela FINA. É o único bicampeão olímpico dos 50m e 100m livre, e o maior medalhista da história dos Campeonatos Europeus. Sua lista de feitos é imensa. Mas ele era tão explosivo nas piscinas quanto em suas declarações. Em sua época de nadador, era arredio a entrevistas, mas quando resolvia falar, fazia a alegria (ou constrangimento) dos repórteres com suas frases que sempre davam muito Ibope.

Abaixo, uma seleção de algumas de suas melhores declarações, seja se auto-promovendo ou tirando onda com rivais e mesmo com os entrevistadores.

Revista NADAR, janeiro de 1995

Entrevista realizada quando Popov veio disputar uma competição no Rio de Janeiro, o Festival Olímpico de Verão, no final de 1994.

NADAR: O que achou dos três recordes mundiais batidos pelos brasileiros em piscina curta?

Popov: As competições em piscina curta não são tão sérias assim.

NADAR: São de brincadeira?

Popov: Não são interessantes. É como você, por exemplo, ter de escrever em sua revista sobre previsão do tempo.


(...)

NADAR: Você ganha dinheiro com a natação?

Popov: Por que você acha que eu nado?

NADAR: Por dinheiro?

Popov: Eu nunca nadei de graça.


(...)

NADAR: Acha que o atleta de natação deve se profissionalizar?

Popov: Sim.

NADAR: Por quê?

Popov: Por que porquê?

NADAR: Para saber o porquê.

Popov: Assim como você, jornalista, ganha para escrever, nós devemos ganhar para nadar.

NADAR: O jornalismo é uma profissão, já a natação que eu saiba...

Popov: (olha para o repórter com cara de "para que lado fica a praia?")


(...)

NADAR: Quais suas próximas metas?

Popov: Quero melhorar ainda mais os recordes mundiais dos 50m e 100m livres e 100m costas e entrar para a história da natação mundial.


Revista Swimming World, julho de 1995

Ping Pong com Alexander Popov

(...)

Pessoa que gostaria de ser: eu mesmo. Deve-se fazer as coisas à sua própria maneira.

(...)

Ator/atriz favorito: essa é uma típica pergunta americana (nota do editor: a revista Swimming World é dos Estados Unidos). Não sonho com atores ou atrizes. Eles que devem sonhar comigo. Eu sou realidade, eles não.




Revista Swimming World, julho de 1996

Entrevista sobre as expectativas para os Jogos Olímpicos de Atlanta.

SW: Qual é o seu ponto forte?

Popov: Minha mente, provavelmente. (Nos Jogos Olímpicos) Não será uma batalha física, e sim mental. Sempre fico relaxado. Jamais fico pensando na prova.

SW: Você prefere que seu adversário se classifique em primeiro nas eliminatórias, sabendo que talvez ele não seja capaz de repetir a performance à noite (nas finais)?

Popov: Bem, eu não posso chegar e perguntar a você por que você não pediu minha permissão para se classificar em primeiro. Na realidade, eu disse para Mark Foster (nadador britânico) no Campeonato Europeu, depois dele ter se classificado em primeiro e eu em terceiro: "Ei Mark, quando você pediu minha permissão para se classificar em primeiro?" Ele disse, "quero a medalha de ouro". Ele já tinha um cordão dourado em volta do pescoço, então apontei e disse "bem, você já tem." Acho que na final ele terminou em quinto.


(...)

SW: Você disse que é muito observador nas competições e que fica relaxado com a situação. Muitos nadadores ficam muito envolvidos, e não olham para ninguém, só para frente.

Popov: Sim, verdade.

SW: Isso te diz alguma coisa quando agem dessa forma?

Popov: Sim, significa que eles são idiotas, sabe?

SW: Idiotas?

Popov: Não é preciso se concentrar para a prova antes da prova.


Diário Lance!, março de 2000

Entrevista sobre as expectativas para os Jogos Olímpicos de Sydney.

Lance!: Você treina com Michael Klim?

Popov: Não, ele que treina comigo.


(...)

Lance!: Quem serão seus prováveis adversários nos Jogos Olímpicos de Sydney?

Popov: Os oito que estarão na final. Quero dizer, como eu vou estar entre eles, os sete que estiverem na final.


(...)

Lance!: O que acha de doping?

Popov: Alguns jornalistas dos Estados Unidos, Brasil ou outros países sempre vêm com esse tipo de pergunta. Talvez porque nesses países as pessoas estejam acostumadas a fazer o uso de doping. Fernando Scherer nadou muito bem em 1998 e fez bons tempos. De repente, some. Ele treina nos Estados Unidos e seu técnico é alemão...

(ainda sobre doping) Existem muitas pessoas que vêm e tentam treinar conosco, mas não conseguem. Fazemos um trabalho muito puxado aqui. Quando alguém está nadando rápido e me perguntam o que acho, digo para trazê-lo aqui para treinar conosco. Vamos ver o que ele é capaz de fazer. Se eu não vejo pessoas treinando, se eu não sei o que elas estão fazendo, eu não confio em seus resultados.





Revista da FINA, maio-junho de 2010

Entrevista já como ex-nadador e membro do Comitê Olímpico Internacional, surpreendemente arredio a uma publicação oficial de uma federação internacional.

FINA Magazine: Como ex-nadador, como você enxerga os eventos de 2008 e 2009 (referindo-se aos trajes tecnológicos)? Você se sentiu ofendido com o que viu (as dezenas de recordes mundiais obtidos pela ajuda dos trajes)?

Popov: Quantos anos tem seu aparelho de telefone? Você se arrependeu de ter substituído seu antigo aparelho há alguns anos por um melhor? Acho que não. Vivemos em um mundo dominado pela tecnologia. Desfrutamos de internet sem fio, e podemos até mesmo usá-la no celular. E anos atrás quem teria pensado que usaríamos nossos celulares para assistir e gravar vídeos? Isso é um grande problema? Então por que você me faz uma pergunta como essa? Respondendo: ao assistir aquelas provas, não senti que deveria sentir pena de ninguém, ou que aqueles nadadores tinham algo pelo qual pudessem se arrepender.


Diário L'Equipe (França), 11 de março de 1997

Para finalizar, uma de suas declarações mais polêmicas.

(O americano Gary) Hall Jr já está dizendo que estará em Sydney e que vencerá as duas provas de velocidade. Não sei como ele pode dizer isso. Seu pai nunca foi campeão olímpico, e ele também não o será. É uma família de perdedores.

A relação entre Popov e Hall Jr sempre foi turbulenta. Em 1996, Popov foi esfaqueado por um vendedor de melancias em uma feira, e corre um boato de que o americano enviou para o russo, quando este estava internado se recuperando, um boneco com uma melancia em uma mão e uma faca em outra. Boato ou verdade? Na edição nº 0 da revista Swim Channel, perguntei a Hall Jr sobre isso.

SC: Quem considera seu maior rival?

Hall Jr: Alexander Popov. A rivalidade que nós tínhamos era pra valer.

SC: É verdade que você enviou a ele um boneco com uma melancia em uma mão e uma faca em outra enquanto ele estava no hospital em 1996?

Hall Jr: Como disse, a rivalidade era pra valer.


Alexander Popov e Gary Hall Jr

Alexander Dale Oen (1985-2012)

Autor: dtakata

Alexander Dale Oen


Alexander Dale Oen, fantástico nadador norueguês, um dos maiores destaques de 2011, está morto. E isso é especialmente tocante por ter acontecido com um nadador que conquistou seu maior título, há menos de um ano, à sombra da morte.

Nos dias que antecederam o Campeonato Mundial do ano passado, em Xangai, 76 pessoas foram mortas na Noruega pelo fanático político Anders Behring Breivik. Dale Oen, compreensivelmente, ficou terrivelmente abalado pelo acontecimento. Na ocasião, ele admitiu que muitas vezes não conseguia se concentrar na competição.

De alguma forma, ele encontrou forças para vencer os 100m peito, com o melhor tempo da história pós-trajes (58.71). Sua parcial nos primeiros 50 metros foi inacreditável: 27.20, a melhor passagem da história, melhor inclusive que seu próprio tempo na prova de 50m, quase meio segundo mais rápido que a passagem do recorde mundial obtido com um traje tecnológico. Questionado sobre isso, respondeu: "Eu poderia ter batido o recorde mundial se minha prova tivesse sido mais equilibrada, se eu tivesse passado para 27.5 ou 27.6. Mas nadei a prova com meu coração, e não de modo estratégico como deveria ter nadado. Foi muito emocional. Nadei pelo meu Rei, pelo meu país e por nossas pessoas que precisam de amor e apoio."

No pódio, sua emoção era nítida. Seus olhos marejados tinham razão de ser. "Pensei nas pessoas do meu país quando vi a bandeira e ouvi o hino nacional. O que aconteceu foi chocante. Espero que meus resultados sirvam de conforto. Voltarei ao meu país para oferecer apoio após o campeonato".

"A vida é maior que a natação. O que aconteceu foi terrível, e certamente coloca as coisas em perspectiva", disse ele na ocasião. Sua declaração também serve perfeitamente para descrever os sentimentos gerados por sua morte, ocorrida ontem devido a um mal súbito logo após um treinamento com a equipe norueguesa, em Flagstaff, nos Estados Unidos.

Primeiro nadador norueguês medalhista olímpico (prata em 2008) e único campeão mundial, ele era um herói em seu país. No entanto, o final perfeito - a medalha de ouro olímpica - não fará parte de sua história. Quando os oito finalistas dos 100m peito estiverem alinhados atrás dos blocos nos Jogos Olímpicos de Londres, ele certamente será lembrado. Ele fez o que amava até o último instante. A vida é maior que a natação. Mas a natação era sua vida.

Alexander Dale Oen

Um argumento a favor das finais à noite

Autor: dtakata



Muito foi celebrado por atletas e técnicos quando a CBDA anunciou que as finais do Troféu Maria Lenk deste ano seriam realizadas à noite. Desde o segundo semestre de 1996, as principais competições do Brasil tinham suas finais realizadas de manhã, com as eliminatórias na parte da tarde/noite do dia anterior, para atender os interesses não somente da televisão (muitas vezes o Esporte Espetacular transmitiu provas ao vivo em domingos matinais), mas da imprensa de uma forma geral. É muito mais viável para os jornais elaborarem as notícias com as provas tendo seus resultados ao meio-dia do que às oito ou nove da noite, para sair na edição do dia seguinte.

Mas muitos se queixavam que essa medida ia contra o interesse dos protagonistas do espetáculo, os atletas. Ao longo dos anos, até mesmo explicações fisiológicas foram dadas. A performance dos nadadores no momento de maior interesse, ou seja, nas finais, seria prejudicada, pois às 10 da manhã o corpo e a mente ainda não estão tão acesos quanto à tarde. De qualquer modo, os atletas tiveram que se adaptar.

Após o término do Maria Lenk e uma análise superficial dos resultados, ouviram-se alguns comentários de que as finais a noite não trouxeram o benefício esperado. Talvez os atletas já tivessem se acostumado a nadar finais de manhã, e a melhora esperada das eliminatórias para as finais não aconteceu, ficando talvez num mesmo nível, ou até abaixo, do que ocorria quando as finais eram de manhã.

Será mesmo? Poderíamos fazer uma comparação deste Troféu Maria Lenk com algum outro em que as finais foram de manhã. O mais justo seria comparar com a edição de 2008, também seletiva olímpica, com os mesmos ingredientes. De todas as finais nadadas, qual foi o percentual de melhora das eliminatórias para as finais nas edições de 2008 e na de 2012?

O mais razoável, para fazer esse levantamento, é não considerar provas não-olímpicas (que tendem a ser deixadas em segundo plano por alguns nadadores), revezamentos e obviamente provas de 800m e 1500m, que são realizadas em finais diretas.

Em 2008, comparando as 192 nadadas das 24 provas consideradas, 35,9% dos tempos foram melhorados das eliminatórias para as finais. Por outro lado, em 2012, 64,6% dos tempos foram abaixados. Uma diferença de quase 30%.

Em 2008, somente uma final apresentou seis nadadores melhorando os tempos da eliminatória, o máximo observado naquela edição. Em 2012, em nada menos que nove provas foram observadas melhoras de seis ou mais nadadores, sendo que em quatro delas todos os atletas melhoraram seus tempos das eliminatórias. Ainda em 2012, a prova que menos apresentou melhora foi os 100m borboleta masculino, na qual somente dois atletas melhoraram da eliminatória para a final. Em 2008, no entanto, 10 provas tiveram somente dois atletas ou menos melhorando tempos.

Talvez a impressão de que na edição de 2012 houve poucas melhoras de tempos entre eliminatórias e finais tenha sido gerada pelo fato disso realmente ter acontecido em provas chave, com muitos atletas brigando por vagas olímpicas, como 100m livre, 100m borboleta e 100m peito masculino. Mas em 2008 essas provas tinham disputa semelhante e o percentual de melhoras foi bem inferior. Como, aliás, foi o padrão de todas as outras provas.

É inegável a importância de atender algumas exigências da mídia. O maior exemplo ocorreu nos Jogos Olímpicos de Pequim, nos quais as finais foram realizadas de manhã. Mas, a julgar por esse simples levantamento, finais a noite, aparentemente, ainda valem a pena. Ao menos para os atletas.

Quem é...

Autor: dtakata

...a maior vencedora de campeonatos brasileiros absolutos, entre homens e mulheres, com 107 títulos individuais em Troféu Brasil/Maria Lenk, Troféu José Finkel e Open?

...a maior campeã brasileira na principal competição nacional, o Troféu Brasil/Maria Lenk, entre homens e mulheres, com 49 títulos individuais?

...a única nadadora, entre homens e mulheres, a conquistar títulos brasileiros em 21 anos consecutivos?

...a única nadadora brasileira, entre homens e mulheres, a disputar cinco Jogos Pan-Americanos?

...a única nadadora da história, entre homens e mulheres, a conquistar medalhas em Pans com 16 anos de intervalo?

...a única nadadora brasileira, entre homens e mulheres, que, já tendo disputado uma Olimpíada, voltou a uma edição dos Jogos após ter ficado de fora da edição anterior?

...a nadadora mais velha a se classificar para uma Olimpíada pelo Brasil, entre homens e mulheres (37 anos em 2012)?

...a segunda nadadora mais velha da história a se classificar para uma Olimpíada (com 37 anos em 2012, só perde para a americana Dara Torres)?

...a nadadora brasileira a se classificar mais vezes os Jogos Olímpicos (três, ao lado de Piedade Coutinho e Joanna Maranhão, que também irá para sua terceira disputa esse ano)?

...a nadadora brasileira que é o maior exemplo de persistência, dedicação e amor ao esporte?

...a nadadora que mais emocionou o Parque Aquático Maria Lenk com sua classificação olímpica?

Talvez você só saiba a resposta das duas últimas perguntas, mas é a mesma de todas as outras anteriores. Fabíola Molina, a seleção brasileira olímpica não seria a mesma sem você!

Fabíola Molina

Emoção até o fim

Autor: dtakata

"Você viu o que está acontecendo no Maria Lenk?" Essa era o assunto na comunidade aquática brasileira, há quase exatos quatro anos, no dia 10 de maio de 2008. Não era para menos. Poucos anos antes, o nado de peito era o estilo mais fraco do Brasil. Pois naquele dia, aconteceu o que foi chamada de "prova do século" em competições nacionais. Nunca ninguém havia presenciado algo semelhante.

Não custa relembrar. Até então, o único com índice olímpico nos 100m peito era Henrique Barbosa, com 1:01.27. Na antepenúltima série eliminatória, Eduardo Fischer, veterano de duas Olimpíadas, surpreendeu muita gente ao conseguir o índice com 1:01.47. Primeiro, porque fazia algum tempo que ele não era convocado para seleções brasileiras. Depois, porque dois nadadores de peito com índice olímpico era algo inimaginável até pouco tempo antes. Mas não parou por aí. Na série seguinte, Felipe Lima não só fez índice como melhorou os tempos de Fischer e Barbosa, com 1:01.21. Apenas para ser superado na última série pelo próprio Henrique, com 1:00.79, e por Felipe França, com 1:01.17. Na final da prova, todos pioraram seus tempos e o panorama não foi alterado: Henrique Barbosa e Felipe França foram os representantes brasileiros em Pequim. Mas aquela eliminatória com quatro atletas fazendo índices, um atrás do outro, foi marcante. Impossível ficar indiferente. Quem presenciou jamais esquecerá.

A partir de então, o nado de peito do Brasil só fez evoluir. Novos nomes surgiram e os que já estavam ficaram ainda mais fortes. Por isso, a expectativa era ainda maior para os 100m peito ontem, no Troféu Maria Lenk. Está certo que a prova dificilmente teria o mesmo componente de 2008, afinal, agora, quatro atletas já tinham o índice antes mesmo do Maria Lenk. A briga não seria para fazer índices, e sim fazer o melhor tempo. No final das contas, Felipe França e Felipe Lima se garantiram (59.63 e 1:00.11, ambos feitos na eliminatória).

Felipe França


França (foto acima) tem agora o terceiro tempo do mundo, atrás de dois japoneses, e pode brigar por pódio olímpico. É difícil considerar o que aconteceu nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, pois naquela época o então novo traje Speedo LZR ocasionou uma melhora significante dos tempos. Mas nas duas Olimpíadas anteriores, os favoritos aumentaram seus tempos na final dos 100m peito (em 2000, Ed Moses e Roman Sloudnov ficaram com prata e bronze, e em 2004 Kosuke Kitajima e Brendan Hansen foram ouro e prata, mas todos piorando bem os tempos feitos na mesma temporada). Por isso, não necessariamente é preciso fazer 58 para subir ao pódio em Londres. Logo, Felipe França já tem chances. Se nadar para 58, que é seu objetivo, a medalha estará muito mais perto.

Felipe Lima, por sua vez, fez a prova de sua vida na eliminatória, passando os primeiros 50 metros para seu melhor tempo sem trajes (27.58, contra seu melhor de 27.82 em prova de 50m peito). Se até ontem nenhum brasileiro havia nadado para 59s em trajes têxteis, Lima quase conseguiu fazer companhia a França no clube do sub-minuto. E não faltou emoção em sua jornada rumo a Londres. Em 2008, ele perdeu a vaga para o mesmo Felipe França por quatro centésimos. Agora, ele chegou ao Maria Lenk com o terceiro tempo do Brasil, somente seis centésimos atrás de João Luiz Gomes Junior. Seria cruel ficar fora novamente por tão pouco. O esporte é assim.

Nesse caso, a crueldade virou-se contra João Gomes. Segundo melhor tempo até o Maria Lenk, ele foi ultrapassado por Lima e também por Henrique Barbosa. O sonho olímpico se desfez em um minuto. Mas em 2008, dos quatro protagonistas da "prova do século", Lima era o único que nunca disputou os Jogos Olímpicos. Agora, carimbou a vaga. Da mesma forma, dos quatro que fizeram índice na prova em 2012, Gomes saiu como sendo o único não-olímpico. Há muitos exemplos de superação nos quais ele pode se inspirar, mas o mais emblemático ele tem em seu rival, em sua prova. Não é exagero e nem clichê dizer que 2016 é logo ali.

Dupla dinâmica

Autor: dtakata

Bruno Fratus


Não é sempre que dois nadadores brasileiros fazem os dois melhores tempos do ranking mundial. Também não é todo dia que um faz o melhor tempo do ano na eliminatória e o outro melhora esse tempo na final. Na verdade, isso nunca havia acontecido na história da natação brasileira. Por isso, o 50m livre masculino do Troféu Maria Lenk foi memorável.

O 21.70 de Bruno Fratus (foto acima) na eliminatória havia melhorado o 21.74 do australiano James Magnussen, que até então liderava o ranking mundial. A marca confirma ainda mais Fratus como forte candidato a medalha nos Jogos Olímpicos, após o segundo lugar no ranking mundial do ano passado. Sua performance no ano passado foi até certo ponto surpreendente, mas ele vem mantendo a regularidade. Já são sete vezes nadando abaixo de 22 segundos, algo importante para os adversários saberem com quem estão lidando e para sua própria confiança chegar em alta a Londres.

Mas o melhor ainda estava por vir. Quem assistiu às eliminatórias desconfiou que Cesar Cielo havia se poupado. Após seu resultado na final, melhorando quase meio segundo seu tempo obtido pela manhã, ninguém teve dúvida disso. Com 21.38, mostrou que no momento está em outro nível. Como sempre, sua saída e seu início de prova foram impressionantes, claramente superior aos seus adversários, e não estamos comparando com qualquer um. Além de Fratus, estava na prova o francês Frederic Bousquet, ex-recordista mundial da prova, e Nicholas dos Santos, também conhecido por sua excelente saída. Em competições internacionais, ele mostra a mesma superioridade. É provavelmente a melhor saída do mundo, e talvez uma das melhores de todos os tempos.

Curiosamente, Fratus na final igualou seu melhor tempo do ano passado, 21.76, um pouco à frente de Bousquet, com 21.79. O francês não irá nadar a prova nos Jogos Olímpicos, pois terminou na quarta posição na seletiva de seu país. Com seu tempo do Maria Lenk, não teria dificuldades para conseguir a classificação olímpica (havia feito 22.05). Ele ainda tem o melhor tempo da era pós-trajes (21.36) e era visto por Cielo como o principal rival pelo ouro olímpico. Em um papo de beira de piscina, Bousquet disse sobre a seletiva francesa: "Tive problemas na saída, larguei um pouco atrasado e quando finalizei minha primeira braçada ainda estava embaixo d'água. Ali, já estava fora da disputa." Mas não se mostrou frustrado e quer nadar bem o Europeu, daqui a um mês. A julgar pela performance de hoje, ele ainda tem lenha para queimar.

Quanto a Cielo (foto abaixo), antes do Maria Lenk ele disse que estaria a 99% de sua forma, para chegar 100% na Olimpíada. Disse também que não iria se raspar com lâmina, somente com barbeador elétrico. "Assim, vou sentir que tem algo sobrando para Londres." Disparado na liderança do ranking mundial, no momento quem está sobrando nos 50m livre é ele próprio.

Cesar Cielo

À toda velocidade

Autor: dtakata

Daniel Orzechowski


Daniel Orzechowski (foto acima) fez 24.44 nos 50m costas ontem, no Troféu Maria Lenk, e agora lidera o ranking mundial do ano na prova. Mas o que é ainda mais impressionante é que seu tempo é um dos melhores da história! No ranking de todos os tempos, ele é o sexto melhor nadador da história. Só que, dos cinco que estão à sua frente, quatro performances foram obtidas com ajuda de trajes tecnológicos. Ou seja, sem trajes, ele só fica atrás do francês Camille Lacourt (24.07, em 2010). E mais: Orzechowski venceria a prova no Mundial de Xangai no ano passado (o inglês Liam Tancock foi ouro com 24.50).

Relembrando que o Brasil venceu todas as outras provas de 50m masculino naquele Mundial (50m livre e 50m borboleta com Cesar Cielo e 50m peito como Felipe França), além de Bruno Fratus ter terminado o ano na segunda posição do ranking mundial dos 50m livre. Provas de 50 metros borboleta, costas e peito não são olímpicas, mas esses nadadores sabem muito bem aproveitar a velocidade em provas de 100 metros. Orzechowski é o único deles sem índice olímpico, mas depois da performance de ontem tem totais chances de conseguir nos 100m costas.

Curiosamente, considerando apenas performances em trajes têxteis, Cielo é o segundo no ranking de todos os tempos dos 50m livre e 50m borboleta, França é o segundo nos 50m peito e agora Orzechowski também é o segundo nos 50m costas. Um revezamento 4x50m medley brasileiro seria o melhor do mundo. O 4x100m medley olímpico tem ótimas chances de fazer bonito na Olimpíada. Ao menos, nunca tivemos uma geração como essa.